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Ocupação feminina

Alessandra Valente(esquerda):”leveza é a palavra de ordem” e Cássia Ximenes(direita): “Ainda estamos lutando por empoderamento”

FOTOS:TIÃO MOURÃO

 

Lideranças femininas falam sobre os desafios da trajetória da mulher e reforçam a necessidade de agir com leveza e firmeza

 

Quem surgiu primeiro, o homem ou a mulher? A ciência indica que o princípio feminino veio primeiro. No catolicismo, Deus criou Adão e, da sua costela, criou Eva. O certo é que os primeiros primatas surgiram entre 6 e 8 milhões de anos atrás e desde a pré-história a mulher vem buscando o seu espaço. Se naquela época foram encontrados sinais de uma alternância de poder, com o avanço da civilização houve o predomínio do poder masculino. Uma denominação reforçada por grupos poderosos, os mesmos que escravizaram e que impuseram regras para garantir a sua permanência no poder.

Foram longos anos, muitas batalhas enfrentadas pelas mulheres, muitas delas perdidas, para se chegar ao século 21 e se constatar que a estrada ainda é longa. Foi pensando em relatar essa ocupação de espaço feminino na sociedade que a revista Viver Brasil e o jornal O Tempo promoveram o evento Mulheres25, no Novotel Savassi. São muitos os relatos de como barreiras foram rompidas e de como a competência e a persistência romperam a linha de invisibilidade imposta às mulheres para que elas avançassem em suas carreiras e deixassem o roteiro pré-determinado a elas ao nascer, de casar, ter filhos, netos e se contentar em manter a casa em ordem. Alessandra Mattar, com seus 27 anos de profissão, incluindo a função de apresentadora de TV, iniciou a sua busca para desvendar o segredo para a felicidade.

Atualmente, com quase 50 anos, trilha a sua vida longe desse “fluxograma” e avisa que o segredo pode estar em uma palavra simples, que une homens e mulheres: a leveza. A felicidade, segundo ela, precisa de uma base que passa por muitos caminhos. Mas avisa: o sucesso sozinho não traz felicidade e existem muitos exemplos que mostram isso, como a história da atriz Marilyn Monroe, ícone da beleza e do sucesso, mas era infeliz. Outra palestrante ligada à comunicação social, Cássia Ximenes, trocou o jornalismo para trilhar o seu caminho em um universo dominado pelos homens: o do setor imobiliário.

Ao decidir trabalhar com o pai, percebeu que para criar a sua própria autoridade precisaria estar sempre com um homem ao lado para se fazer ouvir. Cássia usou desse artifício por um tempo. Tentou duas vezes presidir a Câmara de Merca do Imobiliário e foi persistindo que conseguiu chegar à frente da entidade. Hoje ela também ocupa a vice-presidência da Fecomércio e avisa: “Não podemos deixar de ocupar esses espaços quando somos chamadas porque ainda estamos lutando por empoderamento”.

Em sua palestra, ela traçou o caminho que as mulheres levaram para poder frequentar a escola. Há 200 anos, segundo ela, as mulheres só podiam aprender até o primário. Em 1879, puderam frequentar as universidades. O voto feminino só foi permitido em 1932, com a per missão do pai, do marido ou do irmão. Em 1958, foi permitido às mulheres exercerem a profissão de corretora de imóvel. Foram longos trajetos para se perceber que muita coisa ainda precisa avançar. Só em 1979 as mulheres foram libera das para praticar todos os esportes.

Em 2002 a falta de virgindade deixou de ser crime e, em 2015, o feminicídio virou crime. O mais estarrecedor é que até 2016 não havia um banheiro feminino no Senado. A situação é bem semelhante da imposta às mulheres na magistratura. A juíza Rosimere das Graças Couto precisou maquiar a sua imagem para provar a um magistrado, em sua prova oral para entrar no Poder Judiciário, que não estava interessada em entrar na profissão para namorar e encontrar um marido. Solteira, sem filhos e com 28 anos de profissão, ela ainda ouve que “ela consegue fazer tanta coisa por não ter filhos”.

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A mulher, segundo a magistrada, sofre preconceito por vários motivos. Foi contra essa corrente que Rosimere foi eleita no final de 2024 presidente da Associação dos Magistrados Mineiros, a Amagis, uma das instituições mais respeitadas do país. Ela é a primeira mulher a assumir o cargo desde a sua fundação, em 1955. No Judiciário brasileiro, ela lembra que só temos uma ministra no Supremo Tribunal Federal, a também mineira Cármen Lúcia.

O Tribunal Superior Militar, uma instituição criada em 1808, só agora terá a primeira presidente, a ministra Maria Elizabeth Rocha, única mulher na Corte. A vice-prefeita de Nova Lima, Cissa Caroline, é um exemplo de como o trabalho bem-feito e com credibilidade fez com que ela desse um salto, passando de empreendedora para encontrar seu espaço na política. Esse não foi um caminho procurado por ela: “o meu trabalho me trouxe esse espaço”. Na prefeitura de Nova Lima, Cissa, que também foi chefe de gabinete do prefeito João Marcelo Dieguez, criou o pro grama “Elas no Comando”, para ajudar as mulheres a empreenderem e “criar a sensação de que eu posso fazer”.

O programa foi tão bem sucedido que recebeu um prêmio como referência em empreendedorismo feminino. Esse trabalho também a levou a assumir a vice-presidência da Federaminas Mulher. Cissa diz enfrentar muitos desafios no dia a dia. “Estou há 60 dias na prefeitura, mas parece que estou lá há 10 anos. Mas acordo todos os dias feliz, porque sei que faço a diferença para as pessoas que precisam”, afirma.

Se daqui a quatro anos precisar entrar na disputa pela sucessão de João Marcelo, ela garante que estará preparada. Bárbara Botega, secretária-adjunta de Comunicação do governo de Minas, gosta de usar a frase “a questão não é quem vai me permitir, é quem vai me impedir”, de Ayn Rand. Empresária, formada em ciências sociais e direito, ela não tinha em seu radar entrar na política. Mas se viu impulsionada a se filiar ao Novo, partido que a levou a disputa à Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Ela não foi eleita, mas ajudou a fazer com que o atual vice-governador Mateus Simões assumisse uma cadeira na Casa. Nessa sua empreitada na política, trabalhou como voluntária na campanha do governador Romeu Zema e, mesmo grávida de Alexandre, hoje com seis anos, ela se empenhou para levar Zema ao governo de Minas. E foi esse empenho que chamou a atenção do governador, que a convidou durante a pandemia a assumir cargos no governo. Ela tem muitos casos de como foi tratada como se fosse invisível.

Em um dos episódios, lembra que o secretário de Cultura, Leônidas Oliveira, incomodado com a indiferença com que ela foi tratada por um prefeito, avisou que era melhor ele tratá-la melhor porque Bárbara é que resolvia as questões reivindicadas por ele.