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DO QUARTEL À PROPAGANDA

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Almir Sales: “O mundo está uma loucura”

Fotos:Acervo Pessoal

 

A trajetória do publicitário Almir Sales, o pernambucano que conquistou o Brasil

 

Do quartel para as premiações de Publicitário do Ano, pelo prêmio Colunistas – um dos mais importantes do cenário nacional na publicidade e propaganda – e Profissionais do Ano, pro movido pela Rede Globo, a trajetória do publicitário Almir Sales é a história do talento que se revela no inesperado. Um dos fundadores da agência de propaganda Setembro, responsável pela campanha vitoriosa do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1989, o pernambucano Almir Sales não planejou ser publicitário.

Após servir como militar da ONU, em Suez (Egito), e fazer parte da força-tarefa integrada por sete países que patrulhavam a Faixa de Gaza, Sales retornou ao Brasil em 1964; um ano depois, chegou em Minas Gerais, na cidade de Guanhães, onde deu aulas de francês. A seguir veio para Belo Horizonte, começando sua vida como profissional de comunicação na agência Flama, onde ingressou como office-boy para, mais tarde, abrir a própria agência, a Meta Propaganda. “Conheci o Orlando Junqueira, da Starlight, agência já tradicional em Minas Gerais. Nos juntamos e montamos a Esquema. Da Esquema veio a Setembro, e a Setembro fez história.”

E que história! A Setembro foi responsável pela campanha eleitoral do ex-presidente Fernando Collor de Mello, à época conhecido como o caçador de marajás. “A proposta criativa da Setembro era muito forte e a fez famosa. Ultrapassou a fronteira de Minas Gerais, com muitos prêmios nacionais e escritórios em São Paulo, Rio e Porto Alegre”, conta Sales.

“Também lançamos a Grendene, que não tinha este nome. Queriam colocar o nome (da marca) de A Próxima Atração, tomando carona em um slogan que a Globo usava: vem aí a próxima atração. Mas para a marca não dava sentido e os convenci a usar o sobrenome deles”, revela Sales. Nem é preciso dizer que foi sucesso e quem é dos anos 80 tem a memória marcada pelas sandálias de plástico coloridas com design diferenciado. Não havia menina que não quisesse ter uma Melissinha. Atualmente, a Grendene vende para 70 países e novamente a história teve o dedo genial de Almir Sales como coordenador de uma campanha publicitária que marcou época no Brasil.

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“Eu mesmo me pergunto como, de militar, fui para a propaganda. Foi falta de alternativa”, reflete Almir Sales. Ele conta que com o golpe de 64 houve uma caça às bruxas que o afastou do exército. “Em Suez eu tinha uma certa liderança, comandando o almoxarifado do nosso batalhão. Eu fazia reuniões para passar o tempo e botei o pessoal para ler, para fazer o povo pensar. Isso foi interpretado como ato político. Fiquei um ano preso no Rio, no 2º RI.” Sales foi solto graças ao habeas corpus impetrado pelo jurista Sobral Pinto.

Almir Sales fala que à época não usava o nome completo para não ser facilmente identificado e foi trabalhar como office-boy da Flama como forma de escapar à perseguição. “Fui gostando, li muito, fiz curso de comunicação, dei aula de comunicação.” Mais uma vez, o que se segue é a história: Almir Sales coordenou nacionalmente a campanha eleitoral de Fernando Collor de Mello e entrou, como ele mesmo descreve, de corpo e alma. “Foi um trabalho muito bonito”, diz ele.

Atualmente, Sales está afastado do cotidiano da publicidade e quem dá sequência a seu legado é o filho Juliano Sales, na agência Casablanca. “Estou aposentado, não tenho paciência para a tecnologia automatizada e faço até questão de me manter um pouco distante.” Sales lamenta que a comunicação de aproximação tenha dado lugar à manipulação. “Temo pela próxima eleição. Quanto mais dinheiro e inteligência houver, mais manipulador este grupo será. O mundo está uma loucura.”

 

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