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Ascensão social no Brasil não é conquista — é deserção. O sujeito não sobe; ele foge. Sai do alcance da escola pública, do posto de saúde, da fila, do ônibus, da lei frouxa. Compra distância. Privatiza a própria existência como quem ergue um bunker com ar-condicionado e cancela elétrica. Cidadania virou artigo de lux, o resto é plateia de figurante.
Ninguém confia no governo, e menos ainda no vizinho. O diagnóstico não é ético, é operacional. O brasileiro não acha só que o Estado mete a mão — acha que não entrega nem o troco. Você prende meia dúzia e finge que resolveu a corrupção; onde todo governo promete ponte, entrega dis curso. Mandato de quatro anos é piada perto de um aparelho público que leva 20 para aprender a respirar. Quando reclamar vira esporte inútil, participação cívica se transforma em peça de antiquário. Regra passa a ser recomendação, e o “jeitinho” ganha status de protocolo. Não é desvio de caráter — é adaptação darwinista.
O cidadão aprende cedo: obedecer é perder tempo, e tempo, no Brasil, é o único imposto cobrado com pontualidade suíça. O retrato é escancarado: fuga em massa para planos de saúde, escolas privadas, condomínio com guarita e paranoia. Não há ideologia nisso — há pavor. O indivíduo abandona o coletivo como quem abandona um navio com capitão bêbado e mapa rasgado. Compra solução individual porque o Estado não é capaz de provê-la. Na política, o resultado é um Frankenstein orçamentário. Sem confiança, não há coordenação — há loteamento. O Congresso vira feira livre de emendas, cada deputado se transforma em uma caixa-registradora de interesses paroquiais. O ocupante de cargo público indicado por político corrupto exerce função na Orcrim do padrinho. O plano nacional evapora como água em chapa quente.
A polarização entra como gasolina no incêndio. O adversário não erra — conspira. E assim se constrói a paralisia perfeita: todo mundo grita, ninguém governa, e o país patina com a elegância de um elefante no gelo. Democracia sem confiança é teatro de auditório vazio. Cenário de pa pelão, atores cansados, roteiro repetido. O Brasil não implode — apodrece devagar, com método. Cada um por si, Deus por ninguém, e o Estado, esse velho ator decadente, segue em cartaz, esquecendo falas e cobrando ingresso.
