Saúde

A NOVA ERA DO BISTURI

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Avanços tecnológicos e em protocolos de recuperação reinventam a lógica das cirurgias plásticas e potencializam resultados

 

A cirurgia plástica contemporânea vive um período de transformação acelerada. Dispositivos energéticos mais precisos, técnicas menos invasivas e um entendimento anatômico cada vez mais minucioso redesenham os limites. Tudo isso em um mercado em ascensão: em 2024, o Brasil registrou 2,35 milhões de cirurgias plásticas estéticas, conforme relatório anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, números que posicionam o país como líder em volume de intervenções.

Para o cirurgião plástico Pedro Bersan, poucas rupturas haviam sido realmente significativas desde os implantes mamários dos anos 1960 e as primeiras lipoaspirações dos anos 1970. Os últimos dez anos, porém, inauguraram uma nova era, sus tentada por imagens de alta resolução e tecnologias capazes de tratar pele, gordura, músculos e cartilagens de forma integrada. “Essa reinvenção levou a resultados muito mais individualizados e níveis de segurança muito maiores”, afirma. Ele observa que a virada começou com o aprofundamento anatômico e se consolidou com técnicas e dispositivos especializados, como lipoaspiração vibratória, bisturi piezoelétrico e emulsificadores ultrassônicos.

Os avanços impactam diretamente as cirurgias minimamente invasivas, reposicionando a relação entre resultado, segurança e recuperação. Procedimentos tradicionalmente associados a longos afastamentos ganharam versões discretas, com cicatrizes menores e retorno mais rápido à rotina. “É possível mudar completamente e definitivamente a estrutura da pele sem deixar marcas visíveis, reduzindo complicações e permitindo que o paciente retorne a seu cotidiano cinco dias depois”, garante Bersan. Os exemplos incluem procedimentos mamários e abdominoplastias executadas com apenas 3 incisões de 1 cm.

Entre as novidades tecnológicas, o médico destaca o IgniteRF, lançado em 2024 e disponível no Brasil há poucos meses. “O equipamento usa radiofrequência profunda para tratar flacidez e gordura, enquanto a ponteira QuantumRF combi na energia bipolar pulsada superficial e profunda. Ela entrega altíssima energia e retrai a pele como nenhuma outra, permitindo aquecimento controla do, maior segurança e estímulo intenso de produção de colágeno”, resume. Outro plus é que o IgniteRF não utiliza gases como hélio ou argônio, eliminando riscos associados à sua dissipação no corpo.

Bersan afirma que a novidade atende perfis diversos por alcançar todas as camadas da pele com efeitos imediatos e estímulo prolongado de colágeno. “Praticamente qualquer pessoa que se incomode com flacidez pode se beneficiar”, diz. Ainda assim, o cirurgião reforça que a biologia individual continua determinante: idade, nutrição, preparo pré-operatório e estilo de vida influenciam significativamente os resultados. No pós-operatório, o principal ganho é a redução das restrições e sua adaptação ao ritmo atual. A retomada de atividades cotidianas pode ocorrer entre 7 e 14 dias, a depender da cirurgia. Ele reforça, contudo, que a individualização é central. “Tudo precisa ser muito individualizado, entendendo o que cada cirurgia vai te entregar e exigir de ‘volta’”, afirma.

Especialista em rejuvenescimento e contorno corporal, o cirurgião plástico Fernando Lamana também avalia que o segmento da cirurgia plástica vive um novo paradigma. No contorno corporal, por exemplo, a lipoaspiração de alta definição ganhou novos padrões com a evolução da energia ultrassônica.

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“Em vez de depender apenas da força mecânica da cânula, essa técnica fragmenta e emulsifica as células adiposas, isto é, ‘quebra’ e ‘amolece’ a gordura antes da aspiração. Com isso, é possível preservar em maior grau estruturas como vasos sanguíneos, nervos e septos fibrosos, que são os feixes de tecido conjuntivo que ajudam a sustentar a pele por dentro”, descreve. Na prática, a lipoultrassônica permite uma escultura mais refinada do contorno corporal, com maior precisão para desenhar sulcos musculares e realçar a musculatura já existente em áreas como abdômen, peitoral, dorso e braços.

Lamana também aponta avanços no remodelamento costal com o Piezo ultrassônico, cada vez mais empregado em cirurgias torácicas estéticas. O dispositivo corta estruturas mineralizadas de forma seletiva, preservando tecidos moles e reduzindo riscos. “A possibilidade de esculpir as costelas com incisões mínimas, menor sangramento e maior precisão mudou o padrão técnico desses procedimentos”, afirma.

Os tratamentos complementares acompanham a evolução da cirurgia plástica. A tecnologia Morpheus, por exemplo, é a queridinha do rejuvenescimento facial e corporal: a radiofrequência fracionada associada ao microagulha mento permite tratar epiderme, derme e gordura superficial em uma única sessão. “Conseguimos modular profundidades e energias conforme cada área, o que permite construir um tratamento em camadas, reduzindo flacidez leve a moderada e refinando contornos”, explica Lamana.

Equipamentos como o Argoplasma e o Body Tite, por sua vez, atuam como aliados da lipoaspiração. No caso do Argoplasma, o gás argônio ionizado cria um campo condutor que permite coagulação superficial controlada e retração de colágeno. “É uma ferramenta útil para flacidez leve a moderada, desde que os parâmetros de segurança sejam rigidamente respeitados”, relata. Já o BodyTite aquece simultaneamente o tecido adiposo e a derme por radiofrequência bipolar, promovendo quebra de gordura, contração dos septos e estímulo de colágeno. “Quando bem monitorado, entrega retração previsível e melhora significativa da qualidade da pele”, resume.

Ainda no campo complementar à cirurgia plástica, o biomédico Matheus Castro destaca o Ultraformer MPT como uma das ferramentas mais eficazes para refinamento pós-operatório. “Esse ultrassom microfocado atua exclusivamente na qualidade do tecido, aumentando firmeza e definição em pacientes magros. Costumo dizer que cirurgia corrige a estrutura, e o MPT melhora a textura e a sustentação da pele.” A indicação é maior para flacidez leve a moderada e para pacientes acima dos 35 anos, quando o estímulo de colágeno diminui.

O tempo ideal para aplicação, no entanto, é determinante para preservar a segurança do paciente. Castro explica que a aceleração inflamatória do pós-operatório exige uma espera mínima, até que o tecido estabilize. Em abdominoplastias, a recomendação é aguardar cerca de 90 dias, de vido ao maior descolamento cirúrgico; em lipo aspirações, o intervalo costuma ser de 60 a 90 dias. “Esse tempo respeita a cicatrização inicial e garante uma resposta biológica mais eficiente. Usar o equipamento antes disso pode prejudicar a recuperação ou comprometer o resultado”, afirma.

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Na região periocular, um dos pontos em que cirurgias e a medicina estética mais se complementam, os fios de sustentação assumem função de ajuste fino após a blefaroplastia: podem ser usados para elevar discretamente a cauda da sobrancelha, tratar flacidez residual ou suavizar pequenas assimetrias que não justificam nova intervenção cirúrgica. Castro ressalta, porém, que eles têm limitações. “Os fios não substituem a cirurgia quando há excesso de pele ou gordura. Eles são recursos para detalhes, não para resolver flacidez acentuada”, explica. Em peles muito finas, a visibilidade do fio pode ser um impeditivo, e cicatrizes rígidas também restringem indicação. O biomédico orienta aguardar pelo menos 90 dias após a cirurgia para se submeter ao procedimento. “Os riscos de não seguir uma avaliação extremamente rigorosa incluem edema prolonga do, irregularidades e maior sensibilidade local”, afirma.

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