Fernando M. Torres

Cortejos da diversidade

Maior Carnaval de Belo Horizonte comemora a pluralidade e a liberdade. Vale tudo: desde engajar-se em blocos politizados até se render à diversão pura e simples

 

            Alheia às disputas entre qual cidade detém o maior Carnaval do Brasil, Belo Horizonte se concentra em ter, novamente, a maior folia de sua história. A expectativa da Belotur é que 5,5 milhões de pessoas saiam as ruas entre a Sex[1]ta-feira de Carnaval e a Quarta-Feira de Cinzas. O número de cortejos oficiais é um recorde: 536 blocos se registraram para desfilar nas nove regionais da capital mineira, quase 10% a mais que os 493 inscritos no último ano. Impressiona ainda o número de ambulantes que apostou em ganhar uma grana extra no período: a Prefeitura cadastrou 20,8 mil trabalhadores, aumento de 29% em comparação com 2023.

 

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Pena de Pavão, em seu 11o desfile, traz o tema “Ventres da Terra

 

             A festa cresceu tanto que é preciso organizar o que está em alta. Em termos geográficos, a região Centro-Sul reina absoluta, com 195 dos blocos, principalmente no Centro e na Savassi. Na região Leste, a segunda colocada, estão programados 85 blocos, sobretudo nos bairros Santa Tereza, Santa Efigênia e Floresta.

             A programação ainda inclui 53 na regional Noroeste; 50 na região Nordeste; 48 na Pampulha; 33 na regional Oeste; 20 na Norte; 16 no Barreiro e 10 em Venda Nova.

            Impossível falar do Carnaval de Belo Horizonte sem mencionar o Então, Brilha!, um dos símbolos do “renascimento” da folia na cidade, a partir de 2010. O sábado de Carnaval acorda, mais uma vez, com o incontável mar de gente vestida de rosa e dourado, que se concentra antes do raiar do sol, na esquina entre a rua Curitiba e a avenida do Contorno, no Centro. Politizado, como boa parte dos blocos, o Brilha traz o tema “Você tem sede de quê?”, no qual reivindica o direito à vida a partir do fluido das águas – o conceito poético evoca os movimentos da água, que evapora, vira chuva, congela, dentre outras transformações naturais, associando-os aos desejos que alimentam o ser humano. “Queremos nadar e pescar no Arrudas, remar na lagoa da Pampulha, tomar banho no córrego do Onça”, conclama Leandro César, membro da diretoria, em uma fala de denúncia sobre as más condições dos nossos rios, afluentes e lagoas.

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Então, Brilha! vai reivindicar o direito à vida a partir do fluido das águas

 

            Na lista de um dos maiores blocos do Brasil, o Então, Brilha! desfila com uma bateria composta por cerca de 150 músicos, cortando o hipercentro da capital. Neste ano, a performance será ao som de diversos ritmos de música brasileira e apresentação de performances visuais pautadas pela experimentação artística e pela reflexão social crítica. “Assim como as águas, nossos desejos nos movem e nos guiam, mostrando a direção na qual esse fluir se manifesta e pode mudar a realidade”, diz Renata Barbosa, diretora de comunicação do bloco.

           Outro clássico belo-horizontino é o Pena de Pavão de Krishna, que já está em seu 11º desfile. Com o tema “Ventres da Terra”, o bloco sai do bairro União (rua Camilo Prates, 410), na região Nordeste, a partir das 7h do domingo de Carnaval. O cortejo faz uma saudação à força feminina, especialmente às mestras da cultura popular. Para isso, vai contar com a presença das cantoras Déa Trancoso, Dona Eliza, Fran Januário, Augusta Barna, Deh Muss Onirika e Coral, em uma diversidade etária bastante representativa. Também haverá uma intervenção de palhaças de bicicleta, lideradas pela artista Dagmar Bedê, para homenagear Julieta Hernández, a palhaça venezuelana Jujuba, recentemente assassinada no Amazonas.

               “Ser mulher não é coisa simples e nem fácil”, afirma Déa Trancoso, adiantando que Rita Lee será uma das homenageadas. “Ela foi uma figura muito especial e desbravadora, transitou pela linguagem sexual de maneira leve e sem tabus e tinha uma beleza única.” Como é tradicional, durante a concentração, haverá um piquenique coletivo, com água, frutas e outros alimentos: é o momento ritualístico quando os foliões se pintam de azul e entoam os mantras.

            kirtan, do movimento Hare Krishna. “Vamos trazer o conhecimento ancestral com base nas músicas ‘Tupinambá’ e ‘Olaria Divina’. Essas canções carregam duas divindades, o tupinambá, que chamamos de masculino saudável, e a Nanã Buruquê, uma das forças femininas mais antigas da umbanda”, completa Déa. O cortejo espera receber cerca de 10 mil pessoas.

          Nascido em 2015, no terreiro de umbanda Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente, na Lagoinha, na região Noroeste, o bloco Orisamba, desfila em dose dupla: na sexta de Carnaval, às 19h, e no domingo, às 10h (rua Fagundes Varella, 99, Lagoinha). O cortejo traz para as ruas os “pontos riscados”, uma das formas de comunicação entre pessoas de matriz africana; e os adinkras, ideogramas que expressam valores tradicionais e filosóficos de religiões ancestrais da África. “Somos um grupo que busca preservar toques, ritmos, cantigas e composições que remetem a forma de viver, enxergar e praticar os costumes das heranças umbandistas”, descreve Pai Ricardo, um dos fundadores do bloco.

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Orisamba faz reverência ao sagrado

 

           No desfile, o Orisamba planeja difundir o estilo musical das periferias da cidade, passando por ritmos como samba-reggae, samba-duro e samba-enredo, com direito a uma gravação de um disco com músicas autorais. No repertório, xirê – cantigas para os orixás, músicas autorais, axés ancestrais e músicas populares. “Nosso bloco se coloca na rua em respeito e reverência ao sagrado e como possibilidade educativa, uma vez que ocupar os espaços públicos é esclarecer e viabilizar o diálogo com as diferenças, em busca de respeito mútuo”, diz o cantor e percussionista Gabriel de Moura, também cofundador. Nomes como Aline Calixto, Marcelo Veronez e Hans Landim têm participação confirmada, além de banda, bateria, vocalistas, corpo de baile e acrobatas com bambolês de fogo. A estimativa é reunir 1.200 pessoas.

          Na manhã de segunda de Carnaval, às 8h, o Havayanas Usadas dá início ao cortejo “Axé da Montanha” (avenida dos Andradas, 3.700, Pompeia). A expressão, comum entre artistas de Belo Horizonte, resgata as origens e referências do ritmo baiano, que levou ninguém menos que Michael Jackson e Spike Lee ao Pelourinho. “Exaltamos a conexão de Minas com a Bahia, abordamos a importância da luta ambiental e celebramos a força da espiritualidade contida nas manifestações religiosas que ligam os dois estados”, explica o diretor artístico Di Souza.

 

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Havayanas Usadas: poder da transformação musical

 

              O Havayanas Usadas nasceu em 2016, já estreando com 50 mil foliões. Atualmente é um dos maiores e mais conhecidos blocos de rua de Belo Horizonte – em 2024, projeta reunir 300 mil pessoas. O desfile traz uma experimentação criativa, explorando novidades rítmicas, lideradas pelos regentes e diretores Peu Cardoso e Rodrigo Magalhães, mais conhecido como Boi; enquanto o repertório mescla canções baianas e clássicos mineiros, entoado nas vozes de Heleno Augusto, Vi Coelho e artistas convidados. Além disso, o cortejo conta com o grupo de dança Chinelada, composto por 70 pessoas; e a banda Chinelada, com 170 integrantes. A banda comanda os sons dos surdos, repiques, caixas, congas, xequerê, agogô, teclado, guitarra e baixo, não apenas no Carnaval, mas também ao longo do ano, apresentando-se em vários palcos do Brasil. “A gente acredita no poder da transformação musical, na potência do Carnaval como manifestação cultural, não restrito apenas a uma data”, diz Heleno Augusto, fundador do bloco. Ainda na lista de altas expectativas, o bloco Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro comemora seus 10 anos. A celebração já teve seu primeiro registro no esquenta da folia, mas a festa oficial acontece a partir das 14h da terça-feira de Carnaval.

           O bloco desfila no Floresta (avenida Assis Chateaubriand, 143), revivendo a nostalgia de clássicos do pagode dos anos 1990, desta vez, com a participação da banda Lamparina. As músicas têm arranjos em ritmos de axé, salsa, maracatu e frevo e, claro, pagode baiano, e a ala de dança é composta pelos artistas do Favelinha Dance, projeto do coletivo Lá da Favelinha, comandado por Kdu dos Anjos.

 

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Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro exalta a diversidade do Carnaval

 

             Idealizado pelo músico e advogado Matheus Brant, o Me Beija nasceu no Gutierrez, como o primeiro bloco do bairro. Só em 2018, a concentração se mudou para a avenida do Contorno, momento de estreia de um trio elétrico grande, com banda completa. Em 2020, chegou a reunir mais de 35 mil pessoas. “Quando criamos o bloco, saíamos no domingo anterior ao Carnaval, o que era muito raro. Hoje, dez anos depois, podemos dizer que esse é o tempo de ‘uma geração’, que legou para a cidade um movimento coletivo horizontal e plural, como é a natureza do Carnaval de rua”, diz Brant. Na história do bloco, e também da folia belo-horizontina, destaca-se ainda a gravação do EP “Eu Vou”, em 2018, composta por Brant e Tamara Franklin, que ganhou videoclipe, em 2019, gravado ao longo do desfile. A produção exalta, justamente, a diversidade do Carnaval.

 

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Bartucada convidou o artista Fernando  Pacheco para estampar figurino e trio

 

              Direto de Diamantina e com mais de 50 anos de estrada, o bloco Bartucada homenageia Belo Horizonte no cortejo “Viver Beagá: Arte, Boêmia e Carnaval”, marcado também para a terça de Carnaval, no Funcionários (avenida Brasil, 1.145), às 14h. O figurino dos integrantes foi criado a partir de telas do artista Fernando Pacheco, pintadas com exclusividade, bem como o design do trio elétrico, em música de André de Proença, Carlos Tibúrcio Marraia e Marcelo Toledo. Destaque para o seu bloco caricato, o Xai Xai, e sua ala alegórica, que acompanham o desfile com seus bonecos gigantes: os artistas prestarão reverência a ninguém menos que Milton Nascimento, que será retratado em um dos fantoches.