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A história dos mercados tem um humor perverso: sempre que alguém anuncia o fim das bolhas, nasce outra. Das tulipas do século 17 à exuberância irracional dos anos 2000, o roteiro se repete como peça de teatro antigo. Agora, a vedete é a Inteligência Artificial. E o entusiasmo não vem barato: valuations que ignoram fluxo de caixa, múltiplos suspensos no ar e capital queimado como se não houvesse ciclo adverso. Os paralelos são desconfortáveis. A promessa de revolução total embriaga investidores, euforia substitui racionalidade, e métricas se tornam adereços. Buffett já ensinou: “Nunca aposte contra o longo prazo, mas nunca confie no curto quando o mercado perde o juízo.” Pois bem: o juízo anda rarefeito.
A economia real não acompanha o delírio. Ganhos de produtividade ainda não compensam a escalada dos preços dos ativos. E é justamente aqui que a ferida começa a arder com mais clareza. A hiperconcentração acende o alerta de risco sistêmico: cinco gigantes abocanham mais de 70% dos investimentos globais em IA. Isso cria uma dependência estrutural que repete o enredo das bolhas clássicas — poucos players drenam a liquidez e empurram para cima o preço de ativos cada vez mais imaginários. O “efeito manada” não nasce da tecnologia, mas da assimetria de in formação somada ao excesso de dinheiro barato. Há ainda o calcanhar de Aquiles das projeções de demanda. Muitos modelos de receita supõem crescimento exponencial do uso e das assinaturas, como se o mundo real não tivesse limites: energia, chips, logística. Subestimam quão rápido esses gargalos podem travar o movimento.
TODA REVOLUÇÃO VERDADEIRA CHEGA DEVAGAR, TODO EXCESSO CHEGA RÁPIDO
O planeta não opera na velocidade de uma planilha otimista. E a liquidez global, que inflou essa festa, dá sinais de fadiga. Juros altos apertam o crédito; consumo vacila; investidores reavaliam riscos que antes ignoravam. O estopim nunca é tecnológico — é psicológico. O momento em que o mercado percebe que pagou caro demais por promessas demais. O estouro de uma bolha não destrói a tecnologia, apenas o delírio em torno dela. A IA continuará avançando; o capital, não necessariamente. A pergunta, portanto, não é se há uma bolha. É se ela já começou a murchar. A lição permanece a mesma desde as tulipas: toda revolução verdadeira chega devagar; todo excesso chega rápido. E é no descompasso entre as duas hipóteses que os mercados costumam quebrar.
