Fernando M. Torres

ESCOLA COM PARTIDO

Colégios de perfil conservador em Belo Horizonte posicionam fé, tradição,

formação moral e aulas divididas por gênero no centro da experiência escolar

 

Uma nova geração de escolas particulares em Belo Horizonte vem apresentando às famílias uma proposta que vai além do ensino acadêmico. São colégios que colocam valores cristãos, formação moral, disciplina, família e uma de terminada concepção de ser humano no centro da pedagogia. Alguns assumem explicitamente a identidade católica.

 Outros falam em educação clássica, virtudes, tradição e busca da verdade. Em comum, apresentam uma resposta a famílias que procuram um ambiente escolar alinhado a padrões, digamos, conservadores e que, em alguns casos, fazem questão de se diferenciar de debates contemporâneos sobre gênero, sexualidade e costumes.

O fenômeno ainda é restrito, mas já reúne instituições em diferentes estágios. O Colégio Alta Vista, no Cidade Jardim, está no quinto ano de funcionamento e informa ter cerca de 400 alunos até 9 anos. Em clara referência aos tempos da monarquia, o Colégio Orleans e Bragança, no Mangabeiras, apresenta-se como uma escola com prometida com valores cristãos e com a formação humanística, intelectual, emocional e espiritual.

Já o São Nuno, no Santa Lúcia, adota a educação clássica católica e atende um grupo de apenas 57 crianças e adolescentes de 2 a 15 anos. Há ainda uma nova escola prestes a entrar nesse circuito: o Via Virtus, no Alphaville, anuncia o início das aulas para janeiro de 2027.

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A Viver Brasil tentou entrevistas com os diretores de todos esses colégios. Apenas o Alta Vista aceitou conversar com a reportagem e detalhar sua concepção de ensino. A diretora-geral Virgínia Aro Ferreira conta que a escola começou a ser estruturada em 2013, abriu as portas em 2022 e adota a chamada educação personalizada, metodologia criada na Espanha e difundida no Brasil pela Solar Colégios, com sede em São Paulo. A instituição mineira é associada à rede, que por sua vez mantém vínculo com a espanhola Fomento Centros de Enseñanza. O Alta Vista ressalta que não é franquia nem filial e mantém autonomia administrativa e pedagógica, definindo a proposta como uma educação integral, personalizada e protagonizada pela família.

A palavra personalizada, nesse caso, não significa adaptar o ensino ao gosto ou ao ritmo de cada estudante. “A escola não se limita à transmissão de conteúdos; olhamos para a criança como uma pessoa integral”, diz Virgínia. O objetivo declara do é formar hábitos e virtudes que acompanhem o aluno para além da vida acadêmica, com foco no desenvolvimento de cinco dimensões: inteligência, corpo, afetividade, vontade e transcendência.

Na prática, isso aparece em uma rotina que combina métodos pedagógicos específicos com rígida formação moral e religiosa. O Alta Vista utiliza o método fônico de alfabetização, a prática matemática de Singapura, memorização de poesias e audição diária de música clássica. A partir da educação infantil, há também um trabalho sistemático com virtudes. Cada período do ano é dedicado a uma delas, traduzida para as crianças em comportamentos concretos. Virgínia cita como exemplo a civilidade, trabalhada com o hábito de levantar a mão e esperar a vez de falar.

“A ideia é que esses comportamentos sejam incorporados gradualmente, por meio da construção de pequenos hábitos”, explica a diretora, asso ciando esse processo à formação de crianças que, no futuro, possam fazer escolhas que a escola considera “boas”. A educação moral, por sua vez, não aparece como um complemento extracurricular, mas como parte da própria concepção de ensino. A dimensão religiosa é igualmente explícita. O Alta Vista se define por uma identidade cristã catolicista, oferece aulas de religião e promove prá ticas ligadas ao calendário da Igreja Católica. “Há orações ao longo do dia e atividades relacionadas a datas religiosas, como as homenagens a Nossa Senhora no mês de maio”, descreve Virgínia.

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Mas nem todos os alunos são católicos. A es cola recebe crianças vindas de lares protestantes ou sem definição religiosa, desde que que os pais aceitem que elas sejam educadas de acordo com a doutrina católica. Virgínia conta que costuma fazer pessoalmente as entrevistas iniciais, apresentando uma espécie de pacto: a escola oferece determinada formação, e as famílias aceitam compartilhar seus fundamentos.

É nesse ponto que o conservadorismo aparece de maneira mais explícita. Virgínia afirma que o Alta Vista não exclui uma criança por causa da configuração familiar – casais divorciados, por exemplo – mas não abre concessões em razão das demandas das famílias. O colégio é contrário, por exemplo, à ideologia de gênero e ao aborto. Na visão apresentada por ela, caso esses temas sejam tratados, será a partir da perspectiva crítica da instituição. No quesito “diversidade”, a diretora sustenta que a escola associa o conceito apenas às diferenças de personalidade e comportamento entre as próprias crianças.

Outro elemento que chama atenção é a chama da educação diferenciada por gênero. A partir do segundo ano do ensino fundamental, meninos e meninas são colocados em turmas separadas. A prática, conhecida internacionalmente como single sex education, é apresentada como uma forma de considerar diferenças biológicas e pedagógicas entre os sexos. Segundo a diretora, meninos e me ninas podem apresentar tendências distintas de aprendizagem, e os professores utilizam abordagens diferentes para determinadas aulas.

Virgínia cita, por exemplo, uma suposta maior facilidade das meninas em áreas relacionadas à linguagem e dos meninos em disciplinas exatas, embora ressalve que a escola não trabalha com generalizações absolutas. O conteúdo curricular é o mesmo e segue as exigências do Ministério da Educação. O que muda, segundo ela, é a forma de explorar características consideradas próprias de meninos e meninas.

A proposta do Alta Vista ajuda a entender uma característica que aparece também nos outros colégios que ocupam esse nicho em Belo Horizonte: a tentativa de combinar uma formação acadêmica rigorosa com uma visão moral definida, em vez de deixar questões de comportamento, valores e religião fora do currículo. É uma concepção que se distancia da ideia secular de neutralidade como princípio orientador da escola, tratada não como um problema e sim como um diferencial.

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Inaugurado em 2018, o Orleans e Bragança declara em sua apresentação institucional que pretende formar alunos para “vida, serviço e liderança” por meio de uma formação humanística, intelectual, emocional e espiritual. O colégio mantém ensino fundamental e médio; sua proposta associa a educação à formação do indivíduo e a uma determinada visão de país e de sociedade, na qual tradição, família, moral cristã, os “princípios da pátria” e herança cultural ocidental ocupam lugar central.

O São Nuno segue uma vertente ainda mais claramente identificada com a educação clássica católica. O colégio afirma que pretende formar crianças e jovens capazes de pensar, expressar-se com clareza e sustentar a verdade “para a vida e para o céu”. O Instituto Nossa Senhora da Conceição, mantenedor da escola, foi criado em 2025 como associação sem fins lucrativos. A instituição afirma que sua missão não é apenas preparar alunos para o mercado de trabalho ou para serem bons cidadãos, mas desenvolver seu potencial intelectual, moral e espiritual.

O projeto do São Nuno inclui treinos de caratê, para estimular a força e o autocontrole dos meni nos; e balé, para desenvolver a graça e a harmonia das meninas, além de catequeses semanais e aulas de canto gregoriano. A presença de bolsas é outro aspecto destacado. O colégio informa que concede bolsas de 50% a 95% a quase metade de seus alunos. A concessão, segundo a instituição, considera não apenas a condição financeira, mas também o comprometimento dos pais com o desenvolvimento dos filhos, incluindo estudo e vida de oração.

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Em contagem regressiva para receber os primeiros alunos, o Via Virtus se define como uma instituição de educação clássica católica em busca da verdade por meio da formação das virtudes cardeais, como prudência, justiça, fortaleza e temperança, e as virtudes teologais, fé, esperança e caridade. No projeto pedagógico aparecem referências aos conceitos de educação medieval Trivium e Quadrivium, às grandes obras da civilização, ao debate socrático e à tradição. O colégio também afirma que Cristo está no centro da educação.

A estética e o vocabulário adotados pela propaganda do Via Virtus deixam evidente a inspiração clássica, com expressões em latim como Verum, Bonum, Pulchrum, associadas, respectivamente, à verdade, ao bem e à beleza. A estrutura física anunciada também faz parte da proposta. A biblioteca tem o mesmo valor que a capela, ambas complementadas por sala de música, sala de dança e espaço para artes marciais.

Apesar das diferenças entre os colégios, a educação conservadora parte da premissa de que a escola deve participar ativamente da formação moral dos estudantes, e não apenas transmitir conhecimento. Em vez de apresentar a diversidade de valores como um objetivo em si, essas instituições assumem que a educação deve partir de uma visão muito bem definida e tradicional sobre o que é verdadeiro, bom, belo e desejável para a formação de uma pessoa. Para algumas famílias, afinal, religião e costumes são critérios tão importantes quanto o currículo.