Fernando M. Torres

Avanços e desafios na endocrinologia

Patrícia Corradi: “A prevenção é um dos pilares do atendimento”

FOTO\Francisco Dumont

 

Patrícia Corradi destaca a importância de indicações seguras e confiáveis para o tratamento hormonal e metabólico

 

O avanço das terapias hormonais e dos medicamentos para controle do peso transformou a endocrinologia nos últimos anos, trazendo consigo debates sobre segurança, eficácia e uso adequado. Em Belo Horizonte, a endocrinologista Patrícia Corradi tem se destacado por sua atuação no tratamento hospitalar de doenças crônicas e metabólicas, mas também pela abordagem preventiva. Com formação na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCM-MG) e especialização na Universidade de Nova Iorque (NYU), ela acaba de assumir o cargo de diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Minas Gerais (SBEM-MG), para a gestão 2025-2026. Seu trabalho na entidade refle te a preocupação em garantir que informações científicas seguras e confiáveis cheguem tanto ao meio acadêmico quanto ao público geral. A médica também integra a equipe de Endocrinologia da Rede Mater Dei, atuando no setor de Medicina do Esporte.

Em seu consultório particular no bairro Vila da Serra, Patrícia optou por focar na promoção sustentável da saúde, atendendo principalmente a mulheres que buscam melhor qualidade de vida. A percepção de que equilíbrio físico e mental são indissociáveis levou Patrícia a criar o projeto “Elas Mais”, que, desde 2022, promove encontros para discussão de temas relacionados ao bem-estar feminino. A iniciativa teve crescimento expressivo em 2023, com mais de 20 encontros, e seguiu em expansão de público em 2024, contando com convidadas como a jornalista e palestrante Leila Ferreira e a psiquiatra Sofia Baller. “Nossa proposta é criar um espaço de troca e acolhimento, abordando temas como estilo de vida e prevenção de doenças. Além dos debates, nossos encontros incluem atividades físicas conduzidas por profissionais especializados, em uma abordagem integrada”, descreve Patrícia.

A endocrinologista relata a importância de adotar um olhar individualizado para cada paciente, considerando histórico familiar, genética, rotina, qualidade do sono, alimentação, tabagismo e atividade física. “Frequentemente, mulheres em transição para a menopausa relatam falta de acolhimento e informação sobre esse período de mudanças físicas e emocionais. Na transição do climatério, a terapia hormonal, quando bem in dicada, é segura e pode melhorar significativa mente a qualidade de vida”, observa a médica. A abordagem correta da reposição dos hormônios femininos estrogênio e progesterona considera fatores como tempo de menopausa, histórico de doenças e risco-benefício, garantindo a administração na dose adequada e minimizando efeitos colaterais.

Um ponto que tem gerado discussão na comunidade médica e científica é a terapia à base de testosterona em mulheres. O hormônio, apesar de essencial, não é o principal no organismo feminino, e sua reposição deve ser criteriosa. “A indicação é praticamente restrita a pacientes na pós-meno pausa que apresentam a síndrome do desejo sexual hipoativo, condição que impacta a sexualidade e as emoções. Fora dessa situação específica, o tratamento pode trazer mais riscos que benefícios”, afirma Patrícia.

Outro desafio atual no segmento da endocrinologia é a regulamentação e o uso correto dos novos medicamentos para tratar a obesidade. Patrícia destaca que, pela primeira vez na história, há medicações altamente eficazes e sem efeitos colaterais – vide a febre provocada pela tirzepatida e pela semaglutida, que, na forma injetável, de fato, colaboram com o controle de peso. No entanto, o uso inadequado e a comercialização de versões não regulamentadas têm comprometido a confiança dos pacientes e criado riscos para a saúde. “Implantes dessas substâncias têm sido manipulados de maneira irregular, com doses diferentes das aprovadas pela Anvisa. Essa prática pode gerar efeitos adversos graves e desvalorizar a segurança das terapias para aqueles que realmente precisam do tratamento”, alerta Patrícia.

Ainda que 70% de seus pacientes sejam mulheres, Patrícia também atende homens, especial mente acima de 40 anos, que buscam melhorar desempenho e qualidade de vida. Neste caso, o foco costuma ser a otimização da performance física e mental, com avaliação de indicadores metabólicos e hormonais. “A prevenção é um dos pilares do atendimento, com a identificação de riscos cardiovasculares e fatores que podem comprometer a saúde a longo prazo, como estresse crônico, aumento dos níveis do hormônio cortisol e má qualidade do sono – sem atalhos ou soluções milagrosas, mas com uma abordagem consciente e cientificamente embasada”, conclui a médica.