Fernando M. Torres

O PESO DO EMAGRECIMENTO

Carol Borba: treino específico para quem usa medicamentos da classe GLP-1

 

Com um mercado estimado em R$ 27 bilhões, medicamentos como tirzepatida e semaglutida transformam hábitos de consumo em diferentes setores da economia

 

Apesar de ainda estarem restritas a apenas 5% dos lares brasileiros, o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” tem provocado mudanças significativas em diferentes segmentos da economia e do consumo. Os efeitos começam no carrinho de compras, estendem-se às refeições fora de casa e até aos cardápios de festas, ao mesmo tempo em que impulsionam a demanda por roupas de tamanhos menores e serviços de ajustes de peças. O fenômeno também estimula mercados ligados à beleza e à saúde, desde exames laboratoriais de acompanhamento até tratamentos estéticos e treinamentos corporais específicos.

Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida imitam o hormônio intestinal GLP-1, que aumenta a saciedade, retarda o esvaziamento gástrico e estimula a insulina. Atualmente, eles giram, sozinhos, um mercado de aproximada mente R$ 27 bilhões no Brasil. Entre maio de 2025 e abril de 2026, as vendas formais dos medicamentos somaram R$ 14,6 bi, crescimento de 110% em relação aos 12 meses anteriores, segundo a NielsenIQ; enquanto o Itaú BBA projeta que o mercado não monitorado seja de R$ 12,5 bi no mesmo período.

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Números como esses apontam a reorganização de toda a cadeia de consumo. Os supermercados são um dos primeiros termômetros dessa transformação. “O consumidor brasileiro está mudando suas escolhas, fazendo com que o varejo reavalie o mix de produtos oferecidos”, pontua o vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Marcio Milan. Segundo ele, o setor observa redução em categorias como chocolates, biscoitos, hambúrgueres, produtos processados e bebidas alcoólicas.

Em contraponto, existem categorias em expansão, como frutas in natura, ovos, queijos, legumes, proteínas de origem animal, vitaminas e suplementos alimentares. Para o executivo, o varejo acompanha uma mudança de comportamento consistente, no qual o consumidor passou a planejar melhor as compras e a priorizar alimentos associados à saciedade e ao aporte de proteínas.

Outro segmento que cresce é o de cervejas com menos calorias, baixo ou nenhum teor alcoólico e sem glúten. Entre 2024 e 2026, a categoria passou de 2,5% do volume total de cervejas consumidas para 3,9%, expansão de 1,4 ponto percentual, segundo dados da Neogrid. A Ambev, por exemplo, lançou no Carnaval a lata de 350 ml da Skol Zero (nada de açúcar e álcool), com surpreendentes 12 kcal.

Em março, a empresa escolheu Belo Horizonte como polo para o lança mento nacional da versão 600 ml da Stella Pure Gold de 600 ml, da Stella Artois, com um jantar para convidados no Museu Inimá de Paula: o rótulo sem glúten e 17% menos calorias que a bebida original registrou crescimento de 150% em 2025.

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Chef e proprietária do restaurante Cozinha Santo Antônio, Juliana Duarte lançou em junho o cardápio MonMon, versão reduzida do almoço executivo, em referência à marca Mounjaro, decantada mais potente das canetas emagrecedoras. “Percebi que alguns clientes estavam deixando bastante comida, e alguns me relataram diretamente que estava usando as canetas emagrecedoras”, conta ela. A composição da refeição permanece a mesma, mas a porção principal chega à mesa reduzida em cerca de 30%, com maior presença de legumes e hortaliças e sem sobremesa. Embora o preço também seja menor, a reposição é permitida, caso o cliente queira.

O cardápio serve proteína animal, como coq au vin e mignon de porco, alternada a itens sem carne, como a feijoada de cogumelos, batizada de “cogumelada”. “Quem trabalha com varejo precisa se adaptar aos novos hábitos de consumo” diz Ju liana, mas emenda: “Eu me pergunto sobre o uso indiscriminado dos medicamentos, o preço pode ser alto. A escolha precisa ser consciente e não por uma imposição de padronização dos corpos.”

Acostumada a desenvolver cardápios personalizados para celebrações e encontros corporativos em Belo Horizonte, Gilka Soares, do Gilka Buffet, afirma que a mudança no comportamento dos convidados e anfitriões se tornou perceptível nos últimos anos. Se antes a expectativa era por mesas fartas e repletas de opções, hoje os clientes priorizam cardápios mais enxutos, alinhados ao perfil dos convidados.

Na prática, explica a cozinheira, o planejamento deixou de considerar apenas o número de pessoas para levar em conta também o perfil dos participantes e seus hábitos alimentares, influenciando desde a quantidade produzida até a forma de servir os pratos. “Antes era comum experimentar de tudo e repetir pratos. Hoje vejo as pessoas mais seletivas, satisfeitas com poucas porções e aproveitando aquilo que realmente têm vontade de comer”, relata.

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Em reuniões prévias, o tema aparece espontaneamente. “Já ouvi clientes dizerem: ‘Não precisamos de tantas opções, boa parte desse grupo usa Mounjaro’. É uma informação que natural mente passa a fazer parte da definição do serviço e do cardápio.” A mudança também repercute no desperdício de alimentos. Gilka conta que sua equipe passou a adotar reposições graduais, acompanhando o ritmo de consumo dos convidados, em vez de abastecer toda a mesa logo no início da festa.

A prática, segundo ela, ajuda a preservar a qualidade das preparações e a reduzir sobras. “As pessoas estão entendendo que um evento bem-sucedido é aquele em que tudo faz sentido: boa comida, variedade, qualidade e a quantidade certa. Se conseguirmos servir bem e desperdiçar menos, todo mundo ganha.”

Enquanto o paciente diminui a quantidade de alimentos consumidos, a preservação da massa muscular faz aumentar a preocupação com a qualidade nutricional da dieta, especialmente com a ingestão de proteínas. A Drogaria Araujo, por exemplo, registrou alta de 47% na categoria de nutrição esportiva em 2025 e avançou outros 26% no primeiro semestre de 2026, especialmente no que diz respeito à suplementação.

Entre os produtos que mais ganharam espaço estão a creatina pura e as bebidas proteicas prontas para consumo. “Além de buscar maior ingestão de proteínas, o consumidor passou a priorizar pro dutos práticos, com menor volume e facilidade de consumo”, aponta a superintendente comercial da rede, Sandra Mara de Castro.

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O segmento de bem-estar, por sua vez, apresentou crescimento de 31% nos seis primeiros meses deste ano. “São produtos voltados para a manutenção do organismo como um todo, que apoiam a imunidade e a estética, com foco na melhoria da saúde em geral. No contexto do paciente que utiliza os medicamentos emagrecedores, eles agem para combater a desnutrição silenciosa e os efeitos colaterais estéticos”, diferencia. Segundo Sandra, o “efeito dominó” resultou em maior procura por vitaminas e suplementos de rejuvenescimento.

Após uma retração de 11% em 2025, a categoria de colágeno voltou a crescer e registrou alta de 7% no primeiro semestre de 2026. “O efeito na estética da pele funciona em delay. O cliente não compra esse tipo de produto no primeiro dia; a necessidade surge meses depois, após a consolidação da perda de peso”, observa.

Além dos produtos cosméticos em si, é natural que os efeitos do emagrecimento acelerado levem mais pacientes aos consultórios de dermatologia. “A grande maioria das pessoas perde peso muito rápido e em grande quantidade, de forma que a pele não consegue acompanhar. Flacidez corporal e facial, queda de cabelo e alterações nas unhas passaram a figurar entre as queixas mais frequentes”, relata a médica Anna Correia Lamana, especialista em tricologia e dermatologia estética e clínica.

Entre as manifestações mais comuns está o eflúvio telógeno agudo, enfraquecimento capilar intenso e temporário desencadeado por alterações no organismo. “Quase 99% dos pacientes apresentam esse quadro, com perda de até 70% dos fios”, afirma a médica. Além da rarefação dos fios, ela observa flacidez no rosto, pescoço e corpo, consequência da rápida redução do tecido adiposo, além do aparecimento de celulite e estrias.

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Na avaliação de Anna, o acompanhamento deve começar durante o processo de emagreci mento e não quando os efeitos já se tornam visíveis. A recomendação é associar o tratamento medicamentoso a estímulos para produção de colágeno, atividade física regular, ingestão adequa da de proteínas e acompanhamento nutricional. “Quando associamos esses cuidados ao emagre cimento, o paciente tem muito mais qualidade de vida e menos efeitos colaterais”, diz. Segundo a especialista, a tendência é que esse novo perfil de paciente se torne cada vez mais comum nos consultórios, consolidando uma abordagem que combina saúde, prevenção e estética.

É nesse ponto que o mercado de atividade física também começa a se adaptar. Com a crescente preocupação em preservar massa muscular durante o emagrecimento, surgem programas voltados especificamente para usuários de medicamentos da classe GLP-1. Um exemplo é o Protocolo Sustentação, desenvolvido pela personal trainer Carol Borba em parceria com a plataforma on-line Queima Diária.

O programa reúne dez semanas de treinos de força progressivos voltados a preservar e desenvolver massa muscular durante o emagrecimento, reduzindo a flacidez e preparando o organismo para manter os resultados após o fim da medicação.

“A IDEIA É SUSTENTAR A MASSA MUSCULAR, O METABOLISMO E TUDO O QUE FOI CONQUISTADO DURANTE O TRATAMENTO”

 “A perda de peso, sozinha, não significa uma recomposição corporal saudável. Percebi que muitas pessoas, embora comemorassem a rápida perda de peso, acabavam perdendo também massa muscular, o que resulta em flacidez, fragilidade física e maior dificuldade para manter os resultados no futuro”, diz a profissional. Ela desenvolveu a metodologia visando o fortalecimento do metabolismo, associando o emagrecimento à construção de hábitos permanentes.

O nome da Protocolo Sustentação faz referência exatamente à manutenção dos resultados no longo prazo. “A ideia é sustentar a massa muscular, o metabolismo e tudo o que foi conquistado durante o tratamento”, explica Carol. Na avaliação da educadora física, a chegada das canetas emagrecedoras não reduz a importância da atividade física, mas amplia a necessidade de acompanhamento profissional para que o processo de emagrecimento ocorra de forma segura e sustentável.