Michelle Borges
OURO PRETO ENCONTRA A SI MESMA
Na primeira edição, moradores, artistas, produtores rurais e cozinheiras mostraram que a cultura ganha outro sentido quando ocupa os espaços de quem vive a cidade
O cheiro de casquinha de laranja cristalizando em fogo baixo se mistura ao som de um trio que já toca, sem cerimônia, desde o início da tarde. Crianças correm entre barracas de artesanato, driblando famílias acomodadas em cadeiras distribuídas pela organização. Logo na abertura, um homem se solta sozinho na frente do palco, animado, arrancando risos e aplausos de quem está por perto.
Nas bancas, produtores apresentam queijos, doces e outros produtos feitos nos distritos enquanto contam, com a tranquilidade de quem conhece o próprio ofício, a história por trás de cada receita, de cada peça, de cada cultivo. Não há fila de ingresso, nem cordão separando quem se apresenta de quem assiste. Há, sobretudo, gente de Ouro Preto ocupando um espaço que é seu.
Foi assim que a Praça de Lazer do bairro Cabeças recebeu a primeira edição do Conexão Cultural. Mais do que reunir música, gastronomia e economia criativa, o festival revelou uma Ouro Preto que raramente aparece nos cartões-postais: a dos bairros, dos distritos, dos artistas locais, dos produtores rurais e das famílias que fazem da cidade um lugar de encontros. A escolha do Cabeças reforçou essa proposta. Ao levar a programação para fora do circuito turístico tradicional, o festival mostrou que a cultura também floresce onde a comunidade vive seu cotidiano.
A maior parte da programação foi construída justamente por artistas e produtores de Ouro Preto, reunindo no mesmo espaço músicos, cozinheiras, artesãos e empreendedores que ajudaram a transformar a praça em uma vitrine da produção cultural e gastronômica do município.

Entre os moradores que aproveitaram a programação estava Bárbara Isabela Guimarães. Acompanhada do marido e do filho João, de seis anos, e já na reta final da gravidez, ela encontrou um ambiente seguro para passar a tarde em família. “Fiquei bastante surpresa com a organização, com a comida maravilhosa e com a música agradável. Achei um ambiente muito seguro para trazer crianças”, contou. Para ela, iniciativas como essa precisam acontecer mais vezes. “A população merece. E acho muito importante valorizar quem produz a comida, o artesanato e toda essa cultura que a gente tem aqui.”
Era a música que dava o tom desse encontro. Convidada para participar da primeira edição do festival, Laura Catarina apresentou o espetáculo em homenagem ao pai, Vander Lee, projeto que desenvolve há dez anos. Em 2026, quando o cantor completaria 60 anos, a apresentação ganhou um significado ainda mais especial. “Trazer o repertório dele é uma coisa que eu faço com muita naturalidade, com muita alegria. É uma forma de gratidão”, afirmou. Para Laura, participar da estreia do Conexão Cultural também representa um gesto de confiança. “Começar a participar da primeira edição de um festival é sempre um voto de confiança. Espero que as pessoas voltem nas próximas edições.”
Esse olhar também apareceu entre os artistas da própria cidade. Vocalista da banda Groove de Vinil, Marcelo Heidenreich, destacou a importância de ocupar um espaço pouco utilizado para grandes eventos. “Esse espaço já existe. Tem teatro, quadra e uma praça linda. Potencializar tudo isso com um festival é muito importante”, afirmou. Para ele, descentralizar a programação fortalece a relação da população com a cultura produzida na cidade. “Isso contribui para o pertencimento do povo de Ouro Preto.”
A mesma percepção é compartilhada por Silvinha Gomes, cantora de samba de Cacho eira do Campo, que integrou a programação do festival. Ela destaca que a valorização dos artistas da região fortalece uma cena cultural que já existe e merece cada vez mais visibilidade. “É muito especial ter um público na minha casa”, resume. Para ela, o Conexão Cultural chega como “um presente para a comunidade”, especialmente por reunir, em sua maioria, artistas da própria região.

Se a música aproximava moradores e artistas, a gastronomia fazia o mesmo por meio das memórias. Nas cozinhas ao vivo, receitas tradicionais deixavam de ser apenas alimento para se transformar em histórias compartilhadas. Foi o que mostrou Vovó Pia, doceira de São Bartolomeu, ao preparar a tradicional casquinha de laranja cristalizada. Enquanto dividia técnicas e lembranças com o público, resumiu o sentido da experiência: “As pessoas compram na prateleira, mas nem sempre conhecem quem planta, quem colhe e quem faz.”
Entre quem acompanhava a demonstração estava Cristiano Luiz da Silva, ouro-pretano de família são-bartolomeense. Para ele, ver um doce tradicional do distrito ganhar espaço em um festival realizado na sede do município é motivo de orgulho. “Tem gente que nem conhece como esse processo acontece. Aqui é uma oportunidade de aproximar quem mora na cidade das tradições que continuam vivas nos distritos.”
Ao redor da praça, a feira ampliava esse encontro. Produtores de diferentes distritos apresentavam alimentos, artesanato e saberes construídos ao longo de gerações. De Glaura, Letícia Cassi Rodrigues Araújo levou os queijos produzidos pela família, entre eles o queijo de ovelha, um dos diferenciais da propriedade. Todo o processo acontece na própria fazenda, da criação dos animais à fabricação artesanal conduzida por sua mãe. “Participar de um festival em Ouro Preto é muito especial. É a oportunidade de mostrar um produto feito aqui para pessoas que muitas vezes nem sabem que ele existe tão perto de casa.”

Mais do que ocupar uma praça durante um fim de semana, o Conexão Cultural aproximou moradores da sede e dos distritos, artistas, produtores e cozinheiras que compartilham o mesmo território, mas nem sempre os mesmos espaços. Ao descentralizar a programação e colocar em evidência quem produz cultura durante todo o ano, o festival mostrou que a identidade de Ouro Preto também se constrói longe dos roteiros mais conhecidos. Quando a praça começou a esvaziar, permanecia a sensação resumida por Bárbara logo nas primeiras horas do evento: a de que encontros como esse deveriam acontecer muito mais vezes.
O Conexão Cultural teve patrocínio da Cemig, apoio da Prefeitura de Ouro Preto e realização da VB Comunicação e Blog do PCO.
