paulo paiva

Paulo Paiva

Professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-ministro do Trabalho e do Planejamento e Orçamento no governo FHC

Fazer a coisa certa

Imagem de Mateus Andre no Freepik

 

         A tragédia no Rio Grande do Sul fez florescer o que estava adormecido: o sentimento de compaixão do povo brasileiro. Milhares de pessoas não identificadas se mobilizam para enviar roupas, agasalhos, alimentos, entre tantos outros itens, e ampliam-se as ações de arrecadação de dinheiro. Grupos espontâneos de apoio surgem país afora. Todos unidos, movidos pela virtude da solidariedade. No entanto, vê-se nos noticiários o aumento abusivo nos preços de vários produtos e serviços essenciais, como a venda de galão de 20 litros de água por R$ 80. As altas desproporcionais de preços se alastraram no fornecimento de gás, de combustíveis e de alimentos. O fato não é exceção.

        Michael Stendel, em seu livro Justiça, por ocasião do furacão Charley, que cortou a Flórida do Golfo do México até o oceano Atlântico, em 2004, exibiu manchete do jornal USA Today: “Depois da tempestade vêm os abutres”. Lá como cá, nas tragédias naturais, os preços se elevam além do que se imaginaria justo. Mas o que é preço justo? Nas economias de livre mercado, os preços são determinados pela oferta e procura. Essas tragédias são situações em que a procura cresce vertiginosamente. Os preços não são controlados por lei e as pessoas são livres para fazer suas escolhas. É o jogo duro dos interesses individuais.

Essa não é uma situação normal de livre mercado

        Contrapondo essa visão, Stendel cita artigo do então procurador geral da Flórida, publicado em jornal de Tampa (FL), observando que essa não é uma situação normal de livre mercado, pois os compradores, diante de emergência, estão coagidos e não têm liberdade de escolha. Nessas situações, a ética deve se sobrepor à frieza das leis e ao utilitarismo. Exige-se mais do Estado para garantir o bem comum.

         Voltando ao Rio Grande do Sul; os governos não têm se comportado adequadamente para organizar a ação coletiva. Ele próprio, governo, se aproveita da ocasião para obter possíveis dividendos eleitorais. Falta uma ação coordenada de Estado, com participação da sociedade civil, para construir uma governança eficiente visando organizar a distribuição eficaz dos bens que estão sendo doados pelos brasileiros. A única coisa certa a ser feita para coibir o desatino dos abutres é fazer chegar aos necessitados, rapidamente, o que vem da virtude do povo brasileiro. Onde está a ética no governo?