A frase corre solta nas redes como se fosse decreto divino: o Brasil está prestes a se tornar uma nova potência mundial. O vídeo viral de Paulo Guedes – aquele do dólar abaixo de R$ 5, lembra-se?, que circula por aí, funciona como gasolina jogada na fogueira do otimismo nacional. É curto, sonoro, contagiante. E, como todo slogan bem-sucedido, escamoteia mais do que revela. Guedes há anos insiste que o Brasil ocupa uma posição singular no tabuleiro global. Energia limpa, produção de alimentos em escala planetária, água doce em abundância, mercado interno volumoso.
Em um mundo envelhecido, endividado e geopoliticamente conflagrado, o país pareceria uma espécie de “reserva moral” da economia internacional. A tese seduz e viraliza. Mas potência não se mede apenas por território ou soja embarcada no porto. Potência exige densidade tecnológica, capacidade industrial, projeção diplomática, influência cultural, estabilidade institucional e — detalhe nada irrelevante — continuidade de políticas. É aí que o Brasil costuma tropeçar.
ECONOMIA NÃO SE MOVE POR FÉ, MAS POR DECISÕES DIFÍCEIS, REFORMAS IMPOPULARES
O discurso da potência funciona bem no ambiente digital porque cabe em 30 segundos. Redes sociais, apenas, recompensam entusiasmo. “Brasil potência mundial” vira mantra, não hipótese. E mantra não exige prova — apenas fé.
No entanto, economia não se move por fé, mas por decisões difíceis, reformas impopulares e visão de longo prazo, três coisas que raramente rendem likes. Isso não significa negar o potencial brasileiro. Ele existe e é real. O país é central na segurança alimentar global, tem matriz energética invejável e posição estratégica em um mundo que redescobre o valor de cadeias produtivas mais curtas. O que não existe — ainda — é um projeto nacional minimamente estável que transforme vantagem comparativa em poder efetivo. Há, por tanto, diferença abissal entre poder ser e vir a ser.
Enquanto a política oscilar entre improviso e marketing, a ideia de potência continuará sendo mais uma miragem tropical: bela a distância, frustrante de perto. O vídeo viral diz mais sobre a carência coletiva do que sobre o futuro concreto. Ele revela um país cansado de mediocridade e fa minto por grandeza. O risco é confundir ambição com destino. O Brasil pode ser potência? Pode. Mas potência não nasce de frases de efeito. Nasce quando o país decide parar de se sabotar — e isso, convenhamos, nunca cabe em vídeo curto.
