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Maria das Tranças completa 75 anos, servindo 12 mil pratos com frango por mês
As tranças de Maria Clara Rodrigues deram a ela o nome perfeito para o seu restaurante, antes chamado Bolero. Mal sabia ela que faria história, que já completa três quartos de século com a missão de preparar a passagem do bastão para a quarta geração. O restaurante Maria das Tranças começou em 1950, na avenida Estoril, no bairro São Francisco. Era lá que o freguês chegava, sem pressa, e escolhia a galinha que ia virar o seu almoço.
Maria Clara, moça simples de Conselheiro Lafaiete, nascida em 1900, deixou a terra natal aos 17 anos e foi trabalhar na capital como empregada doméstica, arrumadeira, lavadeira, até juntar um dinheiro para que pudesse quebrar o cofrinho e abrir seu restaurante. Em pouco tempo, o sucesso foi tão grande, que o ex-presidente Juscelino Kubitschek, político carismático, já conhecido nacionalmente naquela época, descia no aeroporto da Pampulha e seguia direto para o estabelecimento. Era cliente assíduo. “Ele ficou amigo da minha avó.
Chegava lá na casa dela e pedia para usar a sala e fazer reuniões enquanto ela preparava o frango ao molho pardo. O prato só era servido quando a reunião terminava”, conta o neto Ricardo Rodrigues, 56 anos, 47 deles trabalhando para levar à frente o legado da avó e do pai, Vitor Rodrigues. Maria Clara trabalhou até os 82 anos e tinha um ciúme danado de quem chegasse perto das panelas dela. “Só ela podia comandar as bocas do fogão”, conta o neto.
Ela morreu aos 87 anos e o filho, Vitor, assumiu o comando da casa em 1987, passando, de pois, o bastão para Ricardo, neto da fundadora. Os números desse legado que Ricardo Rodrigues carrega hoje e trabalha, agora, para passar às filhas Maria Clara, que recebeu o nome em homenagem à avó, e Ana Luísa; são de se orgulhar.
A casa consome, por semana, duas toneladas de frango abatidos, não só para o molho pardo, mas para ser servido com quiabo, frito, ensopado, com fubá, bem mineiro mesmo. No cardápio ainda tem tropeiro e galeto. Segundo Rodrigues, um frango inteiro custa, em média, R$ 97 e serve, cerca de quatro pessoas em qualquer das receitas. Citando outros números, a casa tem um público eclé tico que vai dos dois aos 90 anos. “Temos 408 lugares no salão e um deles, no passado, serviu de pedido de casamento.
Temos um cliente que pediu a mão da noiva e hoje frequenta a casa para comemorar os aniversários dos netos”, conta uma das dezenas de histórias que se passaram nesse 75 anos de Maria das Tranças. Outros números interessantes do estabelecimento são os 12 mil pratos servidos por mês, utilizadas 60 bocas de fogão de uma das cozinhas, mais 58 de outra. São 50 colaboradores para dar conta do recado. O restaurante conta com playground e trabalha com energia limpa, mantendo uma usina fotovoltaica que produz 13 mil quilowatts/mês.
A casa também tem marcas próprias de cerveja, para harmonizar com o frango ao molho pardo, cachaça, picles, molho de pimenta e doce de leite. Outra atração é a coleção de fotos de JK, adquirida do acervo do fotógrafo José Góes. Ricardo Rodrigues se orgulha da maneira como a avó trabalhava. “Ela foi uma das pioneiras do takeaway em Belo Horizonte. E fez esse mercado de uma forma orgânica, que chamamos de trancinha, que é a chegada do cliente à espera do prato para levar para casa.
Há anos, faziam fila aos domingos, com a panela na mão para levar o frango ao molho pardo para o almo ço da família”, orgulha-se. Rodrigues, que perdeu o pai há um ano e oito meses, prepara agora as filhas para dar continuidade ao empreendimento que percorreu o caminho de muitas gerações. “A Maria Clara tem 21 anos e estuda administração e a Ana Luísa faz gastronomia. As duas já trabalham na casa e vão aplicar os conhecimentos no Maria das Tranças com a mesma responsabilidade de levar adiante o nosso legado. Somos um templo de preservação da comida mineira”, entusiasma.