Cachoeira do Tabuleiro: ícone do Parque Nacional da Serra do Cipó
Montanhas e cachoeiras da Cordilheira do Espinhaço atraem turistas com tradições gastronômicas e modos de vida pouco explorados
Ícone do circuito turístico Parque Nacional da Serra do Cipó, a Cachoeira do Tabuleiro perdeu a pole no ranking das mais altas de Minas Gerais de acordo com medições recentes do Instituto Museu das Cachoeiras, responsável pelo Projeto Cachoeiras Gigantes. Mas continua como a maior em queda livre do estado. E teve a altura, neste quesito, corrigida de 273 metros para 280 metros. Mudanças à parte, a famosa queda d’água não perde a majestade.
“Tabuleiro era citada como a terceira mais alta por não haver informações confiáveis sobre as outras grandes cachoeiras do Brasil. Hoje, ela está na 23ª posição em altura total, mas segue entre as dez maiores no quesito queda livre”, ex plica o presidente do Instituto Museu das Cacho eiras, engenheiro Leomar Nestor Teichmann. “Quando tivermos mais medições entre as 200 prováveis mais altas do Brasil será possível disponibilizar os rankings secundários, como o de queda livre”, completa. Hoje, a Cachoeira do Genoíno, em Santa Rita do Itueto, no Vale do Rio Doce, é a primeira em altura total, com 234 metros, em medição da equipe do instituto.
É do mirante do Parque Natural Municipal do Tabuleiro, no distrito de mesmo nome, em Conceição do Mato Dentro, a 167 quilômetros de BH, que se tem a vista mais impactante da também chamada “cachoeira do coração” devido ao formato do paredão rochoso pelo qual despencam suas águas. Na subida dos 740 metros, em meio a uma vegetação característica de Mata Atlântica e Cerrado, encontrar um exemplar de sempre-viva é sempre surpreendente. A taxa de entrada para adultos é de R$ 10; menores de 12 anos e 60+ têm isenção.

Tabuleiro, hoje, é referência em turismo de aventura, principalmente de bike, revela Samarone Matos, chefe do departamento de Turismo de Conceição do Mato Dentro. A cidade de belezas naturais está inserida na Cordilheira do Espinhaço, tombada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2006 como Reserva da Biosfera. A formação geológica é a soma das serras do Cipó, dos Cristais, de Ouro Branco, Geral e da Chapa da Diamantina, que tiveram origem há mais de 2,5 bilhões de anos.
As trilhas da região são consideradas especiais pelos atletas nacionais e internacionais que participam de pelo menos três importantes eventos esportivos realizados no distrito. “São mais de 11 quilômetros de descida da Cachoeira do Tabuleiro, que a gente chama de downhill (íngremes). Destes, praticamente 8 quilômetros são rock garden – trechos de mountain bike repletos de pedras naturais. A galera pira o cabeção. É um rolê muito técnico”, descreve Samarone Matos.
O número de ciclistas que voltam pós-competição para desbravar os territórios rurais cresce desde 2019, quando foi inaugurado o ciclo de torneios. O volume exato deve ser conhecido com a implantação do Observatório de Turismo pela Prefeitura de Conceição do Mato Dentro. Aliado a este movimento, há uma mudança de comportamento do turista, cada vez mais interessado em destinos autênticos, aponta o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira. E são mais de 4 mil distritos, vilas e povoados que preservam tradições gastronômicas e modos de vida pouco explorados, prontos para revelar outras Minas, que são muitas – com a devida licença do autor da “máxima”, João Guimarães Rosa.

Na comunidade de Candeias, em Tabuleiro, por exemplo, o conceito de mineiridade extrapola a típica gastronomia local executada com maestria pelas mãos calejadas de Claudineia de Oliveira no fogão a lenha do Recanto do Tambu. Com simplicidade e sabedoria, ela revela o pro cesso de cultivo da mandioca, da cana-de-açúcar, da banana, do café, das verduras e legumes que vão parar na mesa do restaurante, agregando sabor e colorindo o frango com quiabo, o porco com ora-pro-nóbis, o angu de banana verde, o broto de samambaia refogado, a farofa… Mas o paladar explode mesmo é com a sobremesa. Um inusitado pudim de garapa com calda de melado de cana de comer de joelhos. Preço da refeição: R$ 40 no sistema self-service.
Conceição do Mato Dentro, Itambé do Mato Dentro, Itabira e seus distritos, povoados e comunidades estão inseridos no Caminho dos Diamantes (Diamantina/Ouro Preto), uma das quatro rotas turísticas da Estrada Real, com posta por 19 localidades. Aquele pequeno trecho percorrido pela reportagem revelou-se um universo encantado de cachoeiras e belezas naturais, repletas de paredões, poços e vegetação exuberante. Como a Cachoeira da Prainha, na comunidade do Baú, em Tabuleiro (Conceição do Mato Dentro). Ou o Complexo do Intancado, com quatro das 30 quedas d´água da região de Cabeça de Boi (Itambé do Mato Dentro). E ainda, a Cachoeira dos Marques, na Serra dos Alves (Itabira), uma das quatro mais visitadas.

SIMPLICIDADE E ACOLHIMENTO
Refúgio bucólico a 117 km de BH, o povoado de Santana do Rio Preto, mais conhecido como Cabeça de Boi, pertence a Itambé do Mato Dentro e é um encanto só. Com cerca de 90 a 100 moradores, a vida pacata do lugarejo gira em torno da pracinha, cercada por um reduzido número de pousadas, bares e restaurantes. “Não tem sinal de celular e a internet, nos estabelecimentos, é para fazer Pix. Não fazemos questão de asfalto. As crianças brincam soltas e às vezes um lobo guará visita a pousada para pedir comida. Ganha fruta ou pão”, conta a proprietária da Villarejo, Márcia Monteiro.
Primeiro morador da pracinha, José Agostinho Ferreira, 83 anos, ainda comanda, com ajuda do filho e muito bom humor, o Buteco do Sô Agostinho. No cardápio, “só as coisas do lugar”, frisa. “É o pastelzinho de queijo e de carne, né. Uma carne de lata, um torresminho, um queijinho que a gente fabrica (ele tem uma pequena propriedade rural), e a cerveja gelada”. Sempre disposto a um dedo de prosa, às vezes se anima a tocar uma moda de viola.
Nascido no distrito de Ipoema, em Itabira, Agostinho conta ter se mudado aos 5 anos com os pais e avós para Cabeça de Boi, onde se estabeleceram. Ele viu o comércio que tocava com o avô desde os 14 anos fechar as portas após o êxodo rural imposto por mineradoras, que atraíram a mão de obra local. Basicamente, toda a sua clientela. “Me encantei pela natureza do lugar, as serras, as matas, as cachoeiras, e nunca mais quis sair”.

ANCESTRALIDADE
Uma Minas ancestral, que remonta a milhões de anos com marcas indeléveis deixadas nos paredões da Serra do Veado é um espetáculo imperdível em Cabeça de Boi. O sítio arqueológico com pinturas rupestres datadas entre 8 milhões e 12 milhões de anos confere ainda mais valor às riquezas da região.
O proprietário do terreno de 5 hectares transformado em área de preservação permanente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Paulo Sérgio Bittencourt, cobra taxa de visitação de R$ 10 e também faz as vezes de guia. Certificadas pelo setor de arqueologia do Museu de História Natural da UFMG, as pinturas foram classificadas como da Tradição Planalto, onde é recorrente o desenho do casal veado-peixe. Também há imagens de bois, tatus e figuras humanas, revela Paulinho, como é conhecido.
E se o negócio é voltar na história, vale um pulinho no vilarejo de Serra dos Alves, em Itabira, a 108 km de BH. Lá, o leite ainda chega a cavalo. Grãos de café são secos na porta de casa, como faz dona Terezinha Soares, que gosta de tomar o sol da manhã enquanto arranca uma e outra erva daninha do canteiro. Ela mora bem em frente da Capela de São José, construída pelos próprios moradores em 1866. “Aqui vem gente o dia inteiro para conhecer o lugar”.

Proprietário da Pousada Arco da Mata, Sérgio Luiz Magalhães calcula que o lugarejo tenha mais casas que moradores. São 120 habitantes – 54 na área urbana e os demais na rural. Uma comunidade que mantém seus costumes nas festas religiosas de São José, de Nossa Senho ra da Conceição, do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora do Rosário, quando as maruja das se destacam com suas danças e batuques. E até hoje cultiva mandioca, banana, cana-de-açúcar, café, milho e feijão, com pequenas criações de porcos, galinhas e gado leiteiro.
“A Serra dos Alves surgiu quantos os bandeirantes passaram por aqui, em 1850. O nome vem dos primeiros moradores, donos da Fazenda das Cobras, a mais antiga da região. Hoje ainda tem muitos que assinam Alves”, conta o condutor Geraldo Silva Soares. Como a frenética busca por ouro e cristais não teve muito sucesso no povoado, a economia voltou-se para agricultura e pecuária de subsistência.
A 20 km dali, na divisa com o distrito de Ipoema, o Morro Redondo se ergue a 1.200 metros de altitude. Um mirante natural que permite visão 360 graus da região. No topo está a Ca pela do Senhor do Bonfim, que recebe fiéis em romaria, e o monumento O Destino, da artista plástica Vilma Noel. O condutor Geraldo Silva Soares recorda, orgulhoso, de sua participação na força-tarefa criada para reforma da capela, em 2010. Ao subir a íngreme rampa de acesso ao mirante, lembrou como dividiam o conteúdo do saco de cimento em dois para conseguir carregar o peso até o topo. Durante visita ao Museu do Tropeiro de Ipoema, fez questão de mostrar a foto dele em ação, em livro do fotógrafo Ronei jober Andrade sobre a região.

“Itambé do Mato Dentro, Cabeça de Boi, Conceição do Mato Dentro, Tabuleiro, Serra dos Alves, Ipoema e Itabira estão no mesmo circuito do Espinhaço, da Serra do Cipó. Há uma conexão estabelecida pela natureza, com vegetação, montanhas, fauna e flora dando unidade. O que muda é a singularidade de cada povo, com seus hábitos, culturas e tradições”, conclui a secretária de Turismo, Cultura e Esportes de Itambé do Mato Dentro, Luciana Mara Duarte Simões.
É isso. “Minas – a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas – a gente não sabe”, resume a frase pinçada do texto “Aí está Minas: a mineiridade”, publicado em 1957 por João Guimarães Rosa, em uma declaração de amor ao estado palco de seu romance “Grande Sertão: Veredas”.

