Economia

É impossível competir

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Gustavo Werneck, CEO da Gerdau
Foto \ Divulgação

CEO da Gerdau cobra defesa do setor de aço contra produto subsidiado importado da China e diz que governo demora a reagir

Nascida no Rio Grande do Sul, mas mineira de coração, a Gerdau tem em Minas Gerais a sua principal atividade no Brasil. A empresa, que também tem avançado nos Estados Unidos, experimenta a diferença entre ser um empresário no Brasil e nos EUA. Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, afirma que lá ele tem duas pessoas cuidando da parte tributária, no Brasil são 123 e vai precisar contratar o dobro de funcionários para a transição imposta pela Reforma Tributária. O Custo Brasil, segundo ele, desestimula o setor produtivo. Quando se fala de aço, há ainda a competição desigual e desleal com a China. Mesmo com as dificuldades e com a insegurança de empreender no Brasil, a Gerdau continua acreditando e investindo no país.

A GERDAU PARECE ESTAR MUITO OTIMIS TA COM O BRASIL. SÃO R$ 6 BILHÕES DE INVESTIMENTOS NO PAÍS?

A questão dos investimentos podemos olhar de vários ângulos. Por um lado, estamos muito preocupados com os negócios de aço no Brasil, porque o Brasil tem sido muito lento na implantação de medidas de defesa comercial, que possam trazer uma isonomia competitiva. A China hoje compete de forma desleal no mundo porque o governo coloca muito dinheiro, muito subsídio para poder manter emprego e renda, colocando muito aço com preço muito baixo no mundo.

A gente vê que no Brasil, às vezes, tem aço chegando aqui nos nossos portos com um preço mais barato, bem menor do que o minério que o Brasil vende para lá. Então, quando olho para os investimentos como um todo no Brasil, eu acredito que eles serão muito reduzidos ao longo do tempo porque o efeito colateral do governo não estar defendendo o setor de aço é a redução de investimentos.

O pessoal desanima, perde a motivação. Eu sempre faço questão de separar bem o que chamo de defesa comercial e proteção. O setor do aço e a Gerdau não querem proteção, não somos ineficientes. Falamos defesa porque defesa é trazer a competição para um patamar de igualdade. Os melhores sobreviverão. Esse é o lado, eu diria, complexo de investimentos no longo prazo porque, se o governo continuar nessa lentidão de implantar mecanismos de defesa comercial, a tendência é a gente reduzir investimentos.

E, por outro lado, para nós, na Gerdau, para podermos continuar sendo competitivos, não só no Brasil, mas no mundo, temos investido muito aqui no estado de Minas Gerais para buscar mais competitividade e redução de custos. Nós estamos com um patamar muito forte de investimentos em Minas Gerais e vamos continuar investindo porque os recursos são para buscar alternativas. Nós entendemos que, em todas as localidades que a Gerdau opera no mundo, não tem um estado que seja tão importante e tenha tanta oportunidade para a gente melhorar a competitividade do que Minas.

O nosso estado é contemplado como o estado que no presente, no futuro, terá o maior volume de investimento ao longo do tempo. Nesse exato momento, nós estamos com R$ 6 bilhões de investimentos no estado. Apesar das dificuldades, vamos seguir fortes aqui, investindo em Minas por conta desse tema de competitividade e custo.

SUSTENTABILIDADE É A PALAVRA-CHAVE HOJE NO SETOR?

Sem dúvida. Especialmente no tema de mineração, que ficou muito complexo no Brasil, principalmente depois dos dois acidentes que aconteceram. Temos uma mineração que é de baixíssimo risco. A sustentabilidade para nós é fundamental. Se não for assim, acreditamos que a atividade minerária vai ter cada vez mais dificuldade de progredir. Nós temos mais de 500 novas barragens que foram catalogadas em Minas Gerais ao longo do ano passado. Fazer uma mineração que não tenha barragem é um passo gigantesco para toda a mineração sustentável.

O investimento é muito maior, gasta-se mais dinheiro comprando mais equipamento, o processo é mais complexo, é mais caro, mas tiramos completamente dos nossos negócios o risco de ter uma barragem com água. A sustentabilidade, no que tange à produção de minério de ferro é fundamental. Acreditamos que quem não for nesse caminho vai ter muita dificuldade de sobreviver no futuro.

DEPOIS DE UM INÍCIO MEIO “ESPETACULOSO” DO GOVERNO DE DONALD TRUMP JÁ DÁ PARA ENTENDER O QUE VAI SER DAQUI PARA FRENTE, PRINCIPALMENTE PARA A INDÚSTRIA DO AÇO?

Para nós, que estamos com uma unidade nos Estados Unidos há muito tempo, já compreendíamos melhor um pouco a cabeça do Trump. Não foi uma grande surpresa, até porque lidamos com Trump na primeira administração dele. Temos uma operação muito relevante nos Estados Unidos e o que aconteceu nos primeiros meses foi um pouco de apreensão. Mas, passado esse período, vimos a economia americana, no que tange ao consumo de aço, bastante sólida. Nós estamos com resultados fortes por lá e a nossa perspectiva durante os próximos anos da administração dele é que o consumo de aço na América do Norte siga forte.

Para nós, a decisão de 40 anos atrás de a gente ir para os Estados Unidos e começar a operar localmente, no sentido de mitigar ou reduzir um pouco o risco de estar só num país como o Brasil, ou só na América Latina, ela vem se demonstrando acertada.

O fato de termos, hoje, uma operação muito sólida nos Estados Unidos, com receita em dólar, com o aumento do consumo de aço, ela nos ajuda muito. Mais da metade dos nossos resultados tem vindo dos Estados Unidos. Se a gente tivesse ficado só aqui, estaríamos enfrentando muita dificuldade hoje.

A GERDAU PENSA EM SAIR DO BRASIL E INVESTIR EM OUTROS PAÍSES, INCLUSIVE NA AMÉRICA LATINA?

A gente vem no sentido contrário. Entendemos há 10 anos que, com essas transformações todas pelas quais o mundo está passando, uma empresa igual à nossa tem que ser muito sólida financeiramente, tem que ter um nível de dívida muito baixo. Tem que estar operando somente naqueles mercados onde conseguimos competir de forma relevante.

Nós passamos por um período de 10 anos com um processo de sair, encerrar as atividades em muitos países. Nós concluímos essa jornada faz dois anos e, hoje, o balanço da companhia está super sólido.

Imagina se tivéssemos agora, com o nível de dívida alta, no cenário de juros tão alto? Nosso nível de dívida é muito baixo e nós decidimos, depois desse ciclo de desinvestimentos, que não vamos para outros países. Os países que nós estamos atualmente são os que a gente quer ficar nos próximos 10 anos pelo menos, e nesses países é que a gente vai seguir investindo.

O debate é: qual desses países onde a gente se encontra vai abocanhar a maior par cela de investimentos ao longo do tempo. Nunca tomamos decisão de curtíssimo prazo. A gente sempre olha as tendências de mais médio prazo. Mas, o que nós estamos vendo agora, é se o Brasil continuar piorando do ponto de vista institucional e não colocar mecanismos que possam defender a indústria brasileira, ou seja, se o país continuar nesse processo de desindustrialização, é provável que a América do Norte, incluindo o México, Estados Unidos, Canadá, seja região que abocanhe a maior parcela de nossos investimentos nos próximos 10 anos. Nós temos encontrado nesses três países ambientes mais favoráveis de negócio olhando o longo prazo do que no Brasil.

HÁ RECLAMAÇÕES DE QUE O AÇO QUE ESTÁ SENDO PRODUZIDO NÃO ESTÁ TENDO SAÍDA NO BRASIL?

Na verdade, o consumo de aço está num patamar assim historicamente elevado. A grande questão é que 30% do consumo atual do Brasil é suprido por produtos importados. Isso nunca foi assim. O Brasil é um país que sempre teve penetração de aço importado, mas essa média histórica girava ao redor de 10%. Com 30% de penetração de produto importado, temos hoje uma ociosidade grande da nossa capacidade. O que tem dificultado para nós é essa entrada de aço importa do de forma desleal, especialmente da China.

Então nós sempre competimos globalmente de igual para igual, desde que a competição seja isonômica. Na hora que aparece um país como a China, que coloca uma fábula de dinheiro público para financiar a produção, isso é contra as regras da Organização Mundial do Comércio. É impossível competir. Hoje nós estamos com várias unidades paralisadas no Brasil. Tivemos que fazer desligamento de pessoas.

Tivemos que fechar unidades. Um exemplo prático foi a nossa querida Barão de Cocais, aqui em Minas Gerais, onde nós estamos com a produção paralisada. Imagina o impacto em uma cidade como aquela, que vive da mineração, que vive do aço? Esse é o efeito que acontece, quando nós importamos.

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