Maria Inez Narciso de Oliveira: “Feminicídio é uma realidade terrível
Depoimentos emocionados, cheios de histórias que marcaram as carreiras de executivas que fizeram e fazem história na administração pública e na iniciativa privada marcaram o Conexão Empresarial Mulheres 26 – Protagonismo feminino em debate. No evento promovido pela VB Comunicação, revista Viver Brasil, blogdopco e jornal O Tempo, ficou constatado que novos e antigos desafios persistem e marcam as carreiras dessas mulheres, que segundo a pedagoga Maria Inez Narciso de Oliveira, têm muitos motivos para comemorar, apesar dos desafios.
Ela lembrou que até 1932 as mulheres não votavam e praticamente não existiam, “eram tuteladas”. “Minha vó não votava, minha mãe votou e eu vim de uma geração mais atrevi da”, contou. Para ela, a grande revolução veio com a pílula concepcional, quando as mulheres puderam decidir quantos filhos queriam ter, fato que representou “um salto grande nas suas vidas”. As mulheres foram para faculdades, puderam trabalhar e se dedicar as suas carreiras.
De lá para cá, houve uma transformação, mas ainda há uma resistência. Maria Inez observa que os tribunais têm poucas mulheres, como a representação na política também é baixa. O feminicídio é uma realidade terrível, segundo ela, que não respeita classe social. Essa situação só pode ser corrigida, no seu entendimento, com educação. Maria Inez reflete que “a vida não é fácil, mas nunca fomos fracas”.
A secretária de Estado Cultura e Turismo, Bárbara Bottega, também falou da sua experiência e de como chegou ao governo de Minas, primeiro como secretária -adjunta de Comunicação. Nesse governo, segundo ela, não existe a preocupação com a cota ocupada por mulheres porque elas estão em todos os espaços e “70% dos cargos de confiança são ocupados por mulheres”. Para ela, essa transformação está existindo, mas depende de quem está com a caneta na mão. Ela ressalta o olhar diferente que as mulheres têm e essa capacidade de observação pode ser transformadora, mesmo porque entende que “cultura não é apenas arte. É a forma como a sociedade vive, escolhe, valoriza e sonha.”

A diretora-superintendente da Líder Aviação, Bruna Assumpção, e a diretora de recursos humanos da Telemont, Maria de Lourdes Aguiar, participaram de um painel em que se discutiu a herança familiar e mulheres em cargos executivos.
Bruna Assumpção faz parte da terceira geração na Líder Aviação, fundada por seu avô, o comandante José Afonso Assumpção, hoje com 93 anos. O pulso firme do avô, segundo ela, foi importante para que Bruna buscasse entender todo o processo de funcionamento da empresa, que é uma das mais importantes do país em aviação comercial e pudesse aprimorar seus conhecimentos para ocupar a função que exerce atualmente.
A Líder Aviação tem 67 anos de existência, 1.700 colaboradores e 40% dos seus cargos executivos são ocupados por mulheres. Lourdes, por sua vez, é a única diretora mulher na Telemont, está no cargo há 16 anos e lembra do esforço que teve que fazer para se inserir no grupo executivo da empresa. “Não foi fácil furar essa bolha”, admitiu.
A presença feminina no mundo corporativo, no entanto muda a percepção das coisas, segundo a executiva da Telemont. Para ela “quando uma mulher ocupa uma sala, ela transforma o lugar. Quando muitas mulheres ocupam, elas transformam uma cultura”.

A comunicadora e artista plástica Cris Carneiro participou do painel com a coordenadora de comunicação de marca do Banco Mercantil, Fernanda Palhares Segundo Cris Carneiro, o mercado de artes tem uma predominância grande masculina. Ela também reclama que nos editais para participar de exposições as mulheres também enfrentam as cotas de negros e indígenas que, para ela, são um obstáculo para se ter mais mulheres em espaços importantes. Cris entende que “o mundo está mais flexível, porque tem muitas mulheres em cargos de comando”. No Banco Mercantil, Fernanda Palhares disse que aprendeu a reconhecer a força feminina nas suas raízes familiares, com mulheres fortes e potentes. Para ela, o tempo foi mostrando que a mulher consegue assumir vários papéis e gerir bem o tempo e observa que “as mulheres conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo, com qualidade”.
A endocrinologista idealizadora do projeto de saúde Elas+, Patrícia Corradi ,e a médica e vereadora de Curvelo, Sandra Lopes, entraram em outro aspecto da luta feminina: o da saúde e da qualidade de vida. Para Patrícia, “o que faz bem é o que traz saúde e que coloca em sintonia o corpo e a mente”. O Brasil, segundo a médica, é líder em diagnóstico de doença mental. “Estamos em um ambiente que está adoecendo”, alertou. Sandra Lopes, enfatizou que, muitas vezes ,a mulher negligencia a própria saúde e quando se depara com uma doença como o câncer, ela acaba sendo obrigada a refletir sobre suas escolhas. Como vereadora, ela tem buscado políticas públicas que ajudem a levar o acesso à saúde de maneira adequada. Ela lembra que a atividade física reduz o câncer de mama e influencia em outras doenças.
Já a ex-secretária de Planejamento Renata Vilhena fez um levantamento emocionado da sua bem-sucedida carreira na administração pública. Jovem e com muita vontade de aprender, trabalhou de graça como estagiária na Associação Comercial e depois na administração pública, dessa vez, como estagiária remunerada e onde descobriu a sua vocação. Entre a faculdade, o casamento, os dois filhos e o trabalho, ela se dedicou com afinco, driblando o machismo e os obstáculos impostos a ela. Passou por várias secretarias e portas fechadas até ser avisada de “um jovem gênio” que estava assumindo a Secretaria de Planejamento. O gênio, no caso, era o então secretário Antonio Anastasia, iniciando ali uma parceria de sucesso, que segundo Renata, é referência até hoje em termos de administração pública. Do governo de Minas, ela foi para Brasília, a convite de Cláudia Costin, e na capital federal desenvolveu projetos importantes. Mas lembra que sofreu todo tipo de assédio e de questionamento nos cargos que ocupava e até ameaças.

Atualmente, Renata Vilhena está na Fundação Dom Cabral trabalhando em “projetos desafiadores”, além de dedicar parte do seu tempo a ensinar todo o conhecimento adquirido na administração pública.
Sob a mentoria de Renata Vilhena, a presidente da Copasa, Marília Melo, falou da relevância que a atuação da ex-secretária de Planejamento teve nas suas escolhas e na busca do aperfeiçoamento profissional. Responsável por organizar e liderar o processo de privatização da Copasa, Marília Melo, disse ter muito orgulho da carreira que construiu. Ela começou trabalhando com a gestão das águas até chegar à Secretaria de Meio Ambiente, onde priorizou a aceleração dos processos de licenciamento ambiental falando “sim ou não com avaliação técnica e rápida”.
Dos mais de cinco mil processos que existiam na secretaria quando ela assumiu, ficaram 250 quando ela deixou a pasta. O seu grande desafio, no entanto, foi o de avançar na agenda do clima e o estado é hoje, segundo ela, referência no assunto. Na Copasa, ela passou a lidar com a preocupação em relação à prestação dos serviços. Fato que a levou a se reunir com prefeitos e tratar da questão. Para ela, se 3% da população está sem água, “isso importa”, porque é uma pessoa que está precisando dos serviços e lembrou que o maior indicador de morte infantil é a diarreia, que acontece justamente pela falta de saneamento.
