Obra de Guimarães Rosa completa 70 anos instigando o leitor a sentir as palavras
Texto: Raquel Ayres
“Viver é muito perigoso.” Um aviso sobre a existência ecoa há sete décadas, desde a publicação da obra Grande Sertão: Veredas, em julho de 1956, quando o escritor João Guimarães Rosa embrenhou o leitor sertão mineiro adentro. Iniciou-se, ali, a travessia por um universo marcado pela violência dos jagunços, disputas de poder, mas também pelos dilemas humanos.
“É possível falar do sertão mineiro para descrever o que alguém na África há de sentir, o que alguém na Oceania há de sentir”, afirma o professor e doutor em Estudos Literários Maurício Guilherme Silva Jr. Para ele, a força do livro está em transformar um território específico em espaço universal.
Oralidade sertaneja, erudição, filosofia, religião e referências a outras línguas. Com estes elementos o autor constrói uma escrita própria, parte essencial da experiência narrativa. O resultado, diz Silva Jr., é nomear aquilo que muitas vezes escapa às palavras; sentimentos difíceis de definir.
“Não é um livro para ser entendido de modo direto, ele é para ser vivido, degustado.”
Marise Pimentel Mendes, professora universitária, terminou há pouco a leitura de Grande Sertão: Veredas. Conta que precisou “criar coragem” para enfrentar o romance pela consciência de que não seria uma leitura trivial. A estratégia para vencer o estranhamento foi abandonar a obsessão por entender cada palavra.

“Desisti de ter que compreender exatamente o que era dito e busquei sentir as relações e o que acontecia na narrativa. E essa é a verdadeira delícia do livro”, afirma.
Para ela, Rosa expressou também a visão cultural, social e política de um período e de uma região, que abrange, além de Minas, uma parte da Bahia e de Goiás.
“Os conflitos por que passam as personagens transcendem o território, dando status de universalidade à obra”, diz a leitora.
Quando o livro foi escrito, o Brasil vivia a era JK, os chamados Anos Dourados: desejo de modernização, industrialização e a integração do território nacional. Mas Guimarães Rosa havia sido fisgado pelo sertão depois de uma viagem de nove dias com pernoite em nove fazendas no interior de Minas Gerais.
Pela trajetória de Riobaldo e Diadorim, personagens em torno do qual se desenvolve o enredo, Guimarães Rosa questionou as fronteiras entre o bem e o mal e “parece querer mostrar todas as nuances de humanidade, sem desenvolver uma visão maniqueísta dos personagens”, reflete Marise.
Para o também escritor Ítalo Moriconi, que lançou em junho deste ano o livro Para ler Grande Sertão: Veredas, a obra proporciona “um processo de alfabetização”.

Moriconi explica que o livro gira em torno de dois eixos: a descrição gráfica das batalhas e a narração dos períodos de fuga ou descanso, em meio à beleza do sertão. Por outro lado, há os dramas existenciais de Riobaldo.
“Grande Sertão é um magnífico retrato psicológico de um bandido que, ao contar sua história, faz um exame de consciência, buscando entender o sentido de sua inteira existência.”
Moriconi aponta que a jagunçagem descrita por Rosa encontra ecos nas disputas entre facções criminosas e até na atuação de grupos armados ligados a interesses econômicos atuais. Para ele, a grandiosidade poética e expressiva da prosa do brasileiro Guimarães Rosa o colocam no mesmo patamar de Dante, Shakespeare, Cervantes, Proust, Faulkner: a nata do cânone literário ocidental.

