Mudança na escala 6×1 impõe desafios da redução das horas sem corte nos salários
A escala de trabalho 6 x 1 – seis dias trabalhados para um de descanso – está com os dias contados? Até pode estar, mas esta contagem tende a se prolongar dada à complexidade do tema. Em uma ponta estão supermercados, hospitais, shoppings, indústrias, construção civil, bares, restaurantes entre outros segmentos. Do outro, os trabalhadores e suas particularidades: qualificações, faixas etárias e salariais distintas; casados(as), solteiros(as), com filhos, sem f ilho, estressados ou não; sem tempo para vida pessoal. É quase um cabo de guerra, mas aqui, o objetivo não pode ser derrubar o outro lado; é preciso chegar ao melhor equilíbrio possível.
O presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, representa um segmento no qual a escala 6×1 é típica “porque todo brasileiro gostaria de ter bares e restaurantes abertos todos os dias da semana, se possível 24 horas por dia.”
Segundo ele, a escala 6×1 representa aumento de custo da mão de obra de 20% em seu segmento, o que refletirá nos preços ao consumidor de 7% a 8%. “O consumidor quer pagar esse aumento de custo? Cabe no bolso da população brasileira?” Solmucci fala que, “por enquanto, só se trouxe à luz o eventual benefício de se trabalhar menos e ganhar o mesmo. Os custos precisam ser desvendados e apresentados à sociedade.”
A vice-presidente da AC Minas e consultora de RH, Eliane Ramos, aponta a necessidade de flexibilidade e cautela no tema para uma relação ganha-ganha. Também recomenda que seja avaliado como outros países enfrentam a questão, o que estão fazendo. Entretanto, ela frisa que vivemos a escassez de mão de obra combinada à questões de produtividade.
“Existem escalas 4×3, 2×2, 15×15, depende das particularidades da empresa, da cultura e da legalidade, claro. É preciso levar em conta o modelo de negócio e haver muito diálogo entre trabalhadores, governo e empresários. Tem que ser benéfico para todas as partes.”
Para o auxiliar administrativo Cristian Cândido Amorim, que trabalhou por 13 anos na escala 6×1, foi mais benéfico reduzir salário e carga horária. “Tomei essa decisão porque estava enfrentando problemas de depressão, ansiedade, crises de pânico e até pensamentos suicidas.” Pensar em voltar a trabalhar seis dias na semana lhe provoca o que ele chama de aflição. Já os profissionais de saúde nomeiam a sensação como gatilho emocional.
Gustavo Caldeira de Paula Ricardo, 54 anos, é contador e teve, por psiquiatras e psicólogos, diagnóstico de Burnout, em 2023. “A carga horária estendida limitava a prática de atividades não profissionais. Até que, determinado dia, achei que fosse ter uma pane. Foi quando procurei auxílio médico.” O resultado, além do diagnóstico, foi o afastamento laboral de 31 de março a 1º de abril. Quando retornou, foi demitido.
Se o excesso de horas trabalhadas adoece, a falta do trabalho pode ter o mesmo efeito sobre a saúde física e mental. Artigo publicado pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos mostrou que em 201 países o desemprego relaciona-se à ansiedade, depressão, transtorno bipolar, uso de drogas e transtornos alimentares.
A Federação das Indústrias do estado de Minas Gerais (Fiemg) avalia que a proposta de redução da escala 6×1, sem medidas estruturais que promovam ganhos de produtividade tende a ter reflexos diretos sobre o emprego, a renda e a competitividade das empresas. Conforme a Fiemg, estudos apontam para elevação da informalidade e potencial fechamento de até 18 milhões de postos de trabalho com reflexos diretos e indiretos na economia.

Se a sociedade quer pagar esta conta, ainda a saber. Mas relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado no último dia 10 de fevereiro sobre os custos da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais mostra que os efeitos seriam similares aos de reajustes históricos do salário mínimo, sinalizando capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho.
Mas, muita calma nesta hora, pois a redução da jornada de trabalho sem redução de salário com custo de menos de 1% em setores como indústria e comércio vale para grandes empresas, o que não se aplica à totalidade da realidade nacional. O Ipea aponta que setores de serviços, que dependem de mais mão de obra, podem precisar de políticas públicas de apoio.
O professor da Fundação Dom Cabral, David Braga, que também é presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais, considera que a resistência dos setores produtivos nasce de modelos de gestão antigos, baixa digitalização e medo de perda de previsibilidade operacional e financeira. “A escala 6×1 acaba sendo a forma mais simples de fechar a conta”, afirma o professor.
Braga pondera que em um mercado pouco atrativo a escala vira uma máquina de reposição: empresa gasta mais com recrutamento, treinamento e perda de produtividade na curva de aprendizagem. O empregado entra e sai com menor estabilidade e desgaste acumulado. “O verdadeiro desafio não é trocar a escala, e sim mudar a mentalidade gerencial. Quando bem planejada, essa transição não enfraquece o negócio, mas fortalece a maturidade de gestão e, no longo prazo, vira vantagem competitiva.”
