Cultura

POTEIRO EM RETROSPECTIVA

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Revoadas são tema recorrente nas pinturas de Antônio Poteiro

FOTOS/DIVULGAÇÃO

 

Artista ganha exposição em homenagem ao centenário de nascimento, com 120 trabalhos, na Galeria Errol Flynn

 

Ao definir em uma palavra a obra de Antônio Poteiro (1925 – 2010), Leonardo Reis não hesitou: “simplicidade”. Diretor da Galeria Errol Flynn e coordenador da exposição que comemora o centenário de nascimento do artista, o marchand é um apaixonado pelas cerâmicas e pinturas do criador, que retratam as tradições, festejos e lendas de um Brasil profundo.

“Ele não teve formação erudita, no entanto, sua obra reverbera mundo afora, mostrando o universo do índio, do branco, do negro e da nossa cultura. A crítica o colocou na prateleira do alto, e ele se transformou em um furacão a partir da década de 1970, tendo sido convidado para expor em diversos países”, descreve Reis.

A mostra comemorativa de Antônio Poteiro, inaugurada em 30 de outubro, e em cartaz até 20 de janeiro de 2026, conta com 120 trabalhos, e é também um brinde à Galeria de Arte Errol Flynn, que festeja 25 anos de sua fundação. A exposição é uma retrospectiva das produções do artista nas décadas de 1970, 1980 e 1990. “Rele vante, temática, digna de um museu. Re vela a trajetória de Poteiro, da cerâmica, para o suporte bidimensional, a pintura”, aponta Reis.

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Nascido em 10 de outubro de 1925, em Portugal, Antônio Batista de Souza veio para o Brasil ainda pequeno, onde permaneceu e se radicou. O pai, Américo Souza, era ceramista. O menino seguiu o caminho, produzindo potes de cerâmica, daí o nome artístico de Poteiro, e vendendo seu trabalho em Minas Gerais e Goiás, estado onde faleceu em junho de 2010. “O artista plástico Siron Franco viu Poteiro comercializando as cerâmicas que produzia, próximo à rodoviária de Goiânia, nos anos 1970, e disse para ele que deveria pintar. Entregou-lhe telas, tintas e pincéis. Aí, Poteiro não parou mais”, descreve Errol Flynn Júnior, curador da exposição do artista, irmão e sócio de Leonardo Reis na galeria.

O incentivo de Siron fez brotar o pintor que, em 1978, inaugurou mostra na icônica Galeria Bonino, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Galeria que tinha filiais em Buenos Aires e Nova York. De lá, correu mundo.

Errol Flynn Júnior conta que a maior parte das obras de Poteiro em exposição, cerca de 80, é acervo da galeria, tendo sido adquirida a partir de 2018. “São todas certificadas e deverão ter revisão de preço”, observa o curador e também marchand, acrescentando que a pintura de Antônio Poteiro é “arte mundial”. “Já vendemos para muitos clientes europeus. De 2000 para cá, ninguém vendeu Poteiro como nós”, garante.

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Júnior acredita que a mostra centenária é um marco, “a mais representativa dele”, e que tem o apoio do Instituto Antônio Poteiro, através do filho, Américo, e do vestimenta vermelha, a verde e amarela. O bem e o mal, Adão e Eva no paraíso, a Santa Ceia, a crucificação de Cristo, a der rocada de Tiradentes, estádios lotados em partidas de futebol são momentos e fragmentos da história retratados de forma bem peculiar na sua arte naif, em estilo único A. Poteiro, conforme assinava suas obras.

“Seu repertório vai das belíssimas revoadas de pássaros e cardumes de peixes até os mistérios da fé, a alguns desvãos da alma humana e à luta do bem contra o mal em diversas esferas”, descreve o crítico Olívio Tavares de Araújo.

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Em muitas das obras de Poteiro, observa-se a repetição, como em Revoada, São Francisco e os Pássaros, Flores e O Brasil, entre outras. Sobre a repetição, a professora de produção em artes visuais, Denise Mattar, escreve no catálogo da retrospectiva do artista, atribuindo a ela uma forma poética visual: “Em Poteiro, a repetição é mantra, oração popular. Suas figuras multiplicam-se como rezas murmuradas em coro, como fiéis numa procissão sem fim. Tudo remete ao ciclo da natureza e ao tempo ritualístico — o tempo da terra, da festa, do sagrado”, sintetiza. Os irmãos Errol e Leonardo apontam o quadro Minha Vida como a obra que talvez seja a mais significativa da trajetória do artista. “Ele dizia que arte não é perfeição. Arte é criação”, conta o curador.

Sobre a própria arte, o próprio autor disse: “Eu queria ser cantor, poeta ou avia dor. Não fui nada disso. Fui ser poteiro e ainda fiquei com o nome”.

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