Comportamento

QUANDO O AMOR TERMINA DEPOIS DOS 50

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O crescimento dos divórcios entre pessoas maduras muda histórias e desafia padrões

 

Aos 56 anos, o funcionário público Antônio Carlos Ferreira descobriu que o roteiro da vida convencional – casar, ter filhos e envelhecer ao lado da mesma pessoa – teria de ser reescrito. O divórcio veio após 30 anos de casamento e dois filhos, marcando uma fase de transformações profundas: mudou-se de Ilhéus (BA) para Juiz de Fora (MG); levou com ele o filho André, de 21 anos. Graduado em jornalismo, Antônio iniciou uma nova faculdade; em 2025 foi estudar psicologia.

Antônio faz parte de uma nova realidade: daqueles que se separam com mais de 50 anos. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostraram que de 30% a 36% dos divórcios no país são de pessoas com 50 anos ou mais, índice que há uma década era de 10%. “Não existe mais aquele script de que a pessoa nasce, cresce, casa, tem filhos e vive feliz para sempre”, avalia ele.

O fenômeno não é brasileiro, é mundial: a socióloga Susan Brown, que conduz pesquisa sobre o tema no Centro Nacional de Pesquisa sobre Família e Casamento na Universidade Estadual de Bowling Green, nos Estados Unidos, mapeou a tendência entre 2012 e 2018 e cunhou o termo gray divorce, ou divórcio grisalho.

Uma de suas conclusões foi de que as taxas de separação entre pessoas com 50 anos ou mais dobraram desde 1990 e, de lá para cá, triplicaram entre pessoas a partir dos 65 anos. O movimento revela uma transformação na forma como homens e mulheres enxergam a felicidade e os projetos de vida.

Mudança de perspectiva sobre o casamento – que já não é uma instituição para a vida toda – a autonomia financeira das mulheres e a expectativa de vida mais longa estão entre as causas das separações de pessoas que caminham para a velhice.

Antônio acredita que a ideia de uma trajetória linear deixou de fazer sentido para muitas pessoas: “Se uma relação já não tem mais o que oferecer, é preciso buscar uma nova trajetória.”

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Quem o ouve falando pode achar que “tudo são flores”, quando não é assim. A separação trouxe inseguranças. Um primeiro ano difícil, “muito perdido, sem lugar. Um sentimento de inadequação.” Foi preciso encontrar um novo equilíbrio e propósito. Diante da perspectiva de uma aposentadoria cada vez mais distante e da vontade de permanecer ativo, Antônio planejou seu novo propósito: se prepara para uma transição profissional e para uma nova realização pessoal por meio da carreira como psicólogo.

Um relacionamento também está em seus planos. “Vemos pessoas de 50, 60 e até 70 anos se apaixonando novamente, buscando novas relações e experiências. Eu acredito muito nessa possibilidade. É algo que desejo e acredito que pode ser muito bom”, pondera ele. A psicanalista Marcela Gasparini confirma em sua prática clínica o que as pesquisas mostram e Antônio relata: houve um ano em que atendeu oito casais maduros que se separaram. Ela relaciona o crescimento dos divórcios grisalhos à conquista da autonomia feminina. “Com maior independência financeira e novos projetos pessoais, muitas mulheres passaram a questionar relações mantidas apenas por tradição ou dependência.” Segundo o Instituto Data Popular, a renda feminina cresceu 83% em 10 anos.

Marcela afirma que a separação costuma ser mais difícil para os homens, especialmente aqueles que dedicaram grande parte da vida à carreira e deixaram em segundo plano as redes afetivas. “A mulher tem uma habilidade social maior. Ela conversa, chama as amigas, viaja, cria grupos. O homem, muitas vezes, precisa reaprender a estar no mundo”, afirma.

O recomeço masculino, segundo Marcela, passa pelo cuidado com o corpo: andar de bicicleta, correr, fazer academia. Eles começam a cuidar da saúde, da aparência e a mostrar que ainda estão na pista. Já entre as mulheres 50+ o divórcio representa uma retomada da identidade. “Eu tenho muitas pacientes que, depois da separação, tiveram uma sede muito grande pela vida. É a pessoa que coloca uma roupa que não usava antes, que redescobre coisas que tinha deixado de lado.”

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Formada em comunicação, dona de uma vida profissional rica, mestrado e doutorado concluí dos, V.R. 63 anos (ela preferiu não se identificar para manter a privacidade no trabalho) planejou os movimentos de separação por três anos: terapia semanal para ter clareza de decisões. Mas ela conta que já a partir dos 50 as divergências normais de casal viravam discussão. A vida era muito boa desde que a prioridade fosse o marido: o trabalho dele, os horários dele, as escolhas dele. “Foi uma descoberta.”

V.R e o ex-companheiro eram o estereótipo do casal quase perfeito: intelectuais construindo uma família, se revezando nas tarefas e desenvolvendo vidas profissionais bem-sucedidas. “A gente se ilude, né?”, brinca ela. A virada de chave se deu com a adolescência dos filhos e por um processo que ela chama de “caminho sem volta”: elaboração, consciência, sofrimento, culpa até chegar à tomada de decisão. Ela decidiu por ambos. Dona de autonomia financeira e de posse de seu controle emocional, em breve V.R estará de malas prontas para um doutorado na África. E planeja com uma amiga uma viagem para a Itália e Hungria no próximo ano.

Se o divórcio depois dos 50 era uma exceção, em 2026 é parte de uma nova etapa da vida. Com mais anos pela frente, autonomia financeira e novos projetos pessoais, homens e mulheres descobrem que maturidade e velhice não são sinônimo de permanência, pode ser um tempo de recomeços.

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