Sotaques e sabores hispânicos reafirmam a essência latino-americana brasileira
Nas Américas, o Brasil se isola dos hermanos vizinhos ao ser a única nação cujo idioma oficial é o português. Porém, de norte a sul, expressões regionais brazucas vêm ganhando a companhia cada vez mais intensa de sotaques hispânicos. Esse movimento não é mero acaso ou efeito direto do fenômeno do cantor porto-riquenho Bad Bunny, mas reflexo de um país que começa a se enxergar, finalmente, como parte indissociável da América Latina. Intelectuais como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, ao longo do século 20, já apontavam para essa conexão profunda. Enquanto Freyre destacava nossa herança colonial ibérica, Ribeiro nos definia como um “povo novo”, uma versão mestiça e potente dessa latinidade.
Belo Horizonte não foge a essa tendência e, a exemplo de outras grandes cidades, vive o vibrante fenômeno da “latinização” na cultura, na gastronomia, no mercado de trabalho e no intercâmbio entre universidades. Essa identidade, longe de ser algo homogêneo, é uma construção viva que mistura influências indígenas e europeias e, sobretudo e especificamente no caso brasileiro, africanas.
“Estamos no centro geográfico da América do Sul, mas ainda tateamos no autorreconhecimento como latinos, principalmente pela barreira da língua”, reflete o jornalista e mestre-cervejeiro Augusto Franco, nome à frente da Casa Gabo, na Savassi, um dos muitos bares e restaurantes com acento hispânico da capital mineira.
Inaugurado em julho de 2025, o espaço homenageia o escritor colombiano Gabriel García Márquez, mas sem renunciar a essência latina brasileira. “Ingredientes como milho e mandioca, tão comuns em Minas, são elos fundamentais entre a tradição hispânica da América Latina”, exemplifica Franco, que morou por alguns anos no México e no Equador. Receitas conhecidos como purê de batatas e sobrecoxa de frango dialogam com itens essencialmente hispânicos, a exemplo das tortillas e do mole negro, molho à base de pimentas, sementes, especiarias e frutas.

A Casa Gabo também apresenta o clássico repertório gastronômico latino-americano. Dentre eles, os patacones caribenhos, também conheci dos como tostones, muito populares em países como Panamá, Equador, Cuba e República Dominicana: a iguaria consiste em discos de banana-da-terra verde fritos, prensados e recheados com condimentos mexicanos, como guacamole, pico de gallo e salsa macha.
Do Peru, vem o ceviche, com leche de tigre e ají amarillo, uma pimenta alaranjada; enquanto a Bolívia é representa da pelas saltenhas, a versão frita e recheada de frango das empanadas argentinas. “Adaptamos a picância ao paladar mineiro, mas mantendo a essência em drinques autorais como o Picante de la Casa, à base de tequila e coentro.
Outro destaque desse intercâmbio cultural é a contratação de funcionários imigrantes. Um garçom venezuelano, por exemplo, apresentou aos mineiros o pan de jamón, pão natalino típico da Venezuela, recheado com presunto, uva-passa e abacaxi. “Para a Copa do Mundo, também estamos pensando em um cardápio focado na gastronomia dos países participantes da América Latina, incluindo o Brasil”, adianta Franco.
Na cena musical, a Orquestra Atípica de Lha mas personifica a chamada “cumbia brasileira”. O nome é um trocadilho com as orquestras típicas do mundo hispânico, como os gêneros argentinos tango e milonga, mas com uma linguagem própria que funde a cumbia colombiana a ritmos afro–brasileiros, como carimbó e maracatu. Carlos Jáuregui, o “Carlos Bolívia”, fundador da banda e nascido em La Paz, explica que os músicos têm origem brasileira e hispânica, de países como Chile, Argentina e Peru. “Essa diversidade de origem é essencial para criar a sonoridade híbrida que buscamos”, afirma Jáuregui, ressaltando o uso de instrumentos como a alfaia do maracatu e a guitarra baiana.
A trajetória da Orquestra inclui shows em festivais, teatros e o bloco de carnaval Cómo Te Llama?, que arrasta milhares de pessoas no Horto Florestal ao som de estilos como reggaeton, salsa, carimbó, afoxé, maracatu e, claro, cumbia. Além do impacto das músicas autorais, clássicos como “Cariñito” condensam o amor pelo gênero. “As referências passam pelas grandes orquestras internacionais, mas encontram um norte fundamental na música amazônica brasileira, que já havia ‘deglutido’ a cumbia anteriormente. O sucesso em bares da cidade confirma que o público belo-horizontino não apenas aceita, mas se identifica profundamente com essa pulsação latina miscigenada”, afirma Carlos Bolívia.

Outro pilar dessa sonoridade é o grupo Haba na Vieja, fundado em 2017 para resgatar a música tradicional cubana. Idealizado pelo músico chi leno Camilo Bernales, o projeto foca nos ritmos son cubano, rumba, bolero, guajira e changüí, utilizando instrumentos acústicos como o tres cubano, um tipo de guitarra, e o baixo acústico para criar uma atmosfera rústica e autêntica. Bernales, pesquisador da cultura popular, realiza um trabalho de formação com os músicos, majoritariamente brasileiros e chilenos, para interpretar clássicos de grupos como o Buena Vista Social Club.
“Minas Gerais apresenta paralelos culturais importantes com esse universo, especialmente na valorização das tradições, da música de raiz e das expressões populares. Por isso, a proposta foi muito bem recebida em Belo Horizonte, onde a música tradicional cubana encontrou um terreno fértil para dialogar e se integrar, justamente pelas semelhanças culturais entre os dois contextos”, destaca.
O Habana Vieja tem ocupado espaços de referência como as casas noturnas Paco Pigalle, no Prado, e A Autêntica, no Santa Efigênia; e os bares La Bocaderia Central, no centro, e Juramento 202, no Pompéia. Além disso, integra movimentos como Sapucaí Latina e Salsa da Estação. “Um marco na nossa história foi a apresentação na V rada Cultural de 2019. Ainda estávamos dando os primeiros passos, e aquele show representou uma conquista muito significativa, de reconhecimento ao nosso trabalho e incentivo para continuar a fortalecer espaços para a cultura latina dentro da cidade”, recorda Bernales.
O Instituto Cervantes, na Savassi, também promove a difusão das culturas hispânicas por meio de eventos educativos e artísticos. Entre eles, está a programação do Cineclube Comum, com sessões dedicadas a cineastas hispânicos, em es paços como o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, e o Cine Santa Tereza. Paralelamente, o projeto Sábados Culturais oferece encontros gratuitos e semanais na sede da instituição. Em 2026, o ciclo tem como tema “La Cuba que va conmigo”, sob a condução de professor cubano Boris Tejeda Suñol, especialista em cultura hispano-america na, e com a participação convidados como Alicia Alonso, referência mundial do balé e criadora da Escola Cubana de Ballet; e Humberto Solás, cineasta responsável por obras centrais da cinematografia cubana.

