Se a economia rege o nosso mundo contemporâneo, a economia psíquica também rege o nosso funcionamento mental. Freud já havia destacado sua importância ao descrever esse funcionamento como um sistema de energia libidinal que exige equilíbrio.
A invenção da psicanálise deu-se no final do século 19 e início do século 20, portanto ainda em um contexto de uma sociedade extremamente repressiva, que caracterizou a época vitoriana. As mulheres foram as mais afetadas pelos costumes conservadores e repressivos e, por isso mesmo, tornaram-se as primeiras pacientes de Freud. Apresentavam sintomas histéricos que ele soube escutar como expressão de desejos reprimidos, recalcados, que só poderiam se manifestar pelo corpo, sem lugar de voz na sociedade da época.
Muita coisa mudou desde então. A psicanálise trouxe uma via de liberação e elaboração das pulsões permitindo e viabilizando a expressão dos desejos recalcados, abrindo as portas do inconsciente.
Hoje, o foco do tratamento psicanalítico está no excesso, no que se define como gozo. As portas parecem escancaradas e as pulsões soltas, muitas vezes exigindo medidas repressivas e de contenção de um gozo perverso que ame aça a vida das pessoas – qualquer discussão pode acabar em assassinato.
Não temos o domínio de nós mesmos, embora almejemos o tempo todo, mesmo que precisemos nos amparar em deuses e na capacidade de julgar nossas próprias ações e as dos outros. Talvez a única posição ética em nosso mundo seja assumir nossa divisão estrutural e nossos limites, aprendendo a lidar com as frustrações e com os nãos que a vida impõe. Separar os fatos das narrativas internas abre o espaço e caminho para outras e novas leituras.
