O amor romântico, sonhador, espontâneo não é idealizado em todas as culturas. Arranjos matrimoniais continuam vigentes em algumas partes do mundo, onde o casamento por amor é visto com desconfiança.
Na cultura ocidental, a visão do amor como sentimento sublime e inefável predomina como definição de amor verdadeiro. No entanto, existem certos relacionamentos a dois que parecem pertencer mais ao universo obsessivo-compulsivo, embora não sejam oficialmente reconhecidos como transtornos psíquicos – pelo menos por enquanto. Um dos parceiros torna-se completamente siderado (atônito) pelo outro. Esse desejo intenso e obsessivo, muitas vezes confundido com a paixão, recebeu o nome de limerência – termo criado em 1977 pela psicóloga norte-americana Dorothy Tennov. Ela quis forjar uma palavra que nomeasse o estado involuntário específico de obsessão romântica e que não tivesse semelhança linguística com raízes clássicas associadas ao amor romântico, traçando clara demarcação entre as duas experiências.
No princípio, as relações amorosas costumam ser intensas. A paixão inicial tem algumas semelhanças com os sentimentos descritos como limerência, mas esse arrebatamento costuma evoluir para uma relação mais ponderada, baseada em confiança e apoio mútuo. O parceiro, inicialmente idealizado, começa a ser visto e aceito com suas qualidades e imperfeições.
ESSE ARREBATAMENTO COSTUMA EVOLUIR PARA UMA RELAÇÃO MAIS PONDERADA
Na limerência, a versão idealizada do outro fica cristalizada, o que dificulta que o relacionamento amadureça. A vida passa a girar em torno do objeto de fixação; há uma demanda urgente de que ambos sintam o mesmo tipo de afeto um pelo outro. O limerente tem muito medo de ser rejeitado; suas emoções oscilam da alegria extrema ao completo desespero. Sua vida cotidiana fica prejudicada: a concentração no trabalho e em outras relações fica negligenciada.
Esse estado especial costuma durar meses ou anos e tende a terminar, com o risco de ser substituído por outra relação semelhante. Raramente a limerência evolui para um relacionamento amoroso saudável. O mais comum é que ocorra uma ruptura radical imposta pela outra parte, para quem a situação se torna insuportavelmente sufocante e persecutória. O abandonado ficará desolado e necessitado de ajuda psicoterápica imediata devido ao risco de depressão e passagem ao ato. Relações saudáveis devem ser fonte de tranquilidade e apoio, não de desespero.
