O homem não é apenas um ser de linguagem, mas também um ser musical.
Entre as inúmeras funções que a música oferece, destaco a função terapêutica, constatada em diversas doenças neurológicas e demenciais. Chama a atenção o fato de que pessoas que perderam a memória, especial mente a memória recente, sejam profunda mente tocadas por determinadas músicas, que despertam aquilo que podemos definir como uma memória arcaica.
Isso também encontra fundamento na psicanálise. Sabemos que o processo analítico opera por meio da palavra e que, depois de muita fala, a mente vai, pouco a pouco, esvaziando-se de tantos pensamentos repetitivos.
Esse esvaziamento conduz ao núcleo vazio do ser e possibilita a escuta do tom e do ritmo próprios de cada um. Alguns são estridentes; outros, suaves. Isso também acontece com o próprio envelhecimento. À medida que vão caindo e se perdendo as roupagens que nos revestiram ao longo da vida, surgem traços de identidade que só se fazem ouvir no silêncio das pulsões. São traços que se manifestam por meio do olhar, dos gestos e das tonalidades da voz, revelando uma musicalidade.
SÃO TRAÇOS QUE SE MANIFESTAM POR MEIO DO OLHAR, DOS GESTOS E DAS TONALIDADES DA VOZ, REVELANDO UMA MUSICALIDADE
Às vezes uma valsa vienense; outras, uma marcha fúnebre; outras ainda, um silêncio de morte. A natureza musical de cada um revela-se nas perdas que a vida impõe e oferece um recurso singular que permite a cada um manter alguma consistência diante do impossível do real da existência.
Não existe um suporte padrão. Cada um deve inventar, à sua maneira, o que pode fazer suplência às perdas que a vida impõe, para seguir em frente, cada um com sua melodia.
