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TEMPO SUSPENSO

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Às vésperas do lançamento de Quando, escritora mineira Carla Madeira reflete sobre as incertezas e os conflitos humanos que movem sua literatura

 

Carla Madeira se recolheu em Trancoso para concluir a etapa final de Quando, seu quarto romance, previsto para ser lançado no segundo semestre de 2026. A história, segundo ela, já está contada; o desafio, agora, é encontrar silêncio suficiente para ouvir o ritmo do texto. “A etapa final da escrita consiste em procurar a embocadura certa das falas, polir frases e ajustar vozes, eliminar excesso. Às vezes, há palavras bonitas dentro do meu critério, mas que precisam sair porque estão sobrando”, observa a autora.

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Sem conseguir vencer todas as zonas de incerteza, Carla voltou da Bahia com a sensação de que o livro ainda pedia tempo de depuração. O próprio título sintetiza a inquietação que atravessa o romance, e, segundo ela, também a experiência humana. “A pergunta de Quando acompanha a vida inteira. Quando algo acontece, quando termina, quando alguém chega, quando alguém parte. É uma palavra atravessada pela temporalidade”, diz. A tensão parece residir justamente nessa suspensão: a espera por algo inevitável, mas cujo instante exato é impossível de controlar.

De certa forma, a origem do livro está ligada a fatalidades ocorridas nos últimos anos. Em 2022, Carla perdeu a mãe, Irlanda, e, pouco de pois, acompanhou o adoecimento e a morte da empresária Simone Moreira, sua sócia na agência de publicidade Lápis Raro, uma das mais importantes de Belo Horizonte. Embora rejeite a ideia de autoficção, ela admite que os lutos moldaram profundamente o estado emocional da escrita. “O livro nasce desse desamparo diante do tempo, de uma tentativa de organizar internamente acontecimentos difíceis demais para serem nomeados.

Comecei a escrever porque precisava lidar com esses sentimentos.” O processo criativo, reconhece Carla, afastou–se da disciplina dos trabalhos anteriores. “Eu anotava coisas soltas, escrevia alguns trechos de maneira pulverizada. Só mais perto do fim a escrita ganhou um pouco de ordem”, conta. A própria estrutura de Quando traduz esse distanciamento. A autora revela uma tentativa deliberada de rom per parcialmente com a com construção formal das obras anteriores. “Optei por um desprendi mento maior em relação à forma. Apresento uma polifonia mais livre, mais fragmentada entre os personagens e o narrador, que enreda o leitor sem que ele se perca na narrativa.”

A trajetória de Carla Madeira no mercado editorial ajuda a explicar a liberdade estética as sumida em Quando. Desde Tudo é Rio, publicado inicialmente pelo Grupo Editorial Quixote, em 2014, a escritora construiu uma relação incomum entre literatura de alta densidade emocional e amplo alcance de público. Aos poucos, o romance ganhou leitores, em um movimento sustentado pela “boca a boca”.

A virada de alcance veio em agosto de 2018, quando a escritora Martha Medeiros publicou uma crônica no jornal O Globo descrevendo Carla como uma “revelação literária” e Tudo é Rio como uma “obra-prima”. Na sequência, vieram A natureza da mordida (2018) e Véspera (2021), também recebidos com entusiasmo pelos leitores e pelo meio literário. Carla soma hoje mais de 1,2 milhão de livros vendidos.

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Em todos os títulos, Carla manifesta interesse pelos limiares humanos, por momentos em que pessoas aparentemente comuns são empurradas para conjunturas extremas. “Tenho interesse na complexidade das situações-limite, provocadas pelo acúmulo de tensões invisíveis. A maioria das pessoas tenta simplificar muito rapidamente certos acontecimentos; eu, ao contrário, quero justamente olhar para aquilo que veio antes, para as camadas antecedentes ao rompimento”, diz. Segundo a escritora, seus personagens nunca nascem da tentativa de representar modelos uni versais. “Eu me interesso por aquela mãe específica, aquele filho específico, aquele casamento específico. E, paradoxalmente, é justamente aí que as pessoas se reconhecem.”

É o que acontece em Véspera, romance no qual a protagonista abandona o filho em um momento de exaustão intensa e, minutos depois, já arrependida, tenta resgatá-lo. Carla afirma ter recebido inúmeros relatos de mulheres que se identificaram com a experiência emocional da personagem, ainda que jamais tenham vivido algo semelhante concretamente. “Muitas mães falavam sobre o desejo de fugir de situações de estresse e esgotamento – não do filho, necessariamente, mas daquela sobrecarga. Isso aparece de maneiras diferentes na vida.”

O olhar atento às contradições humanas despontou muito antes da estreia literária. Co fundadora da agência Lápis Raro, em 1987, Carla construiu uma sólida carreira como diretora de criação, além de ter dado aulas de redação publicitária na UFMG, nos anos 1990. A experiência ajudou a moldar uma escrita direta, marcada por frases curtas e imagens fortes. “Na publicidade, você aprende síntese.

 Precisa contar uma história em 30 segundos. Ou tudo acontece muito rápido ou não acontece.” Ao mesmo tempo, ela reconhece que a literatura lhe abriu territórios subjetivos impossíveis dentro da lógica mercadológica. “No ofício publicitário, existem briefing, planejamento, objetivos muito definidos. Já a literatura é um espaço de liberdade absoluta”, diferencia.

Anunciada em outubro de 2025, a venda da Lápis Raro também foi marcada por emoções complexas. Carla conta que a decisão começou a ser discutida ainda antes do adoecimento da amiga e sócia, Simone, quando ambas perceberam que os filhos não tinham interesse em as sumir a empresa. “Não queríamos simplesmente delegar tudo e simplesmente nos distanciarmos. Por isso, começamos a preparar a empresa para um processo de sucessão e autonomia dos diretores”, relata.

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A negociação com o Grupo Partners aconteceu nesse contexto. Carla vê a operação como uma forma de preservar o legado construído ao longo de quatro décadas. “Queria proteger a cultura da empresa, as pessoas, tudo o que foi construído ali. Foram muitas vidas atravessadas pela Lápis Raro”, pontua. Atualmente, mesmo afastada das atividades diárias, ela continua próxima da agência, integrando o conselho administrativo. “Ainda me sinto parte da Lápis. Não consigo separar completamente a escritora da publicitária. Sou essa mistura.”

Talvez essa convivência entre diferentes linguagens ajude a explicar por que a obra de Carla Madeira transita com naturalidade para outros formatos. Tudo é Rio está em desenvolvimento para o cinema pela produtora paulistana Boutique Filmes, com direção de Julia Rezende e roteiro de Gustavo Lipsztein; o romance também deve ganhar uma leitura para o teatro. Véspera, por sua vez, será lançada como série pelo canal HBO Max, com Gabriel Leone, Bruna Marquezine, Camila Márdila e a belo-horizontina Yara de Novaes no elenco. Nas adaptações de Tudo é Rio, Carla manteve participação mais distante, mas assumiu envolvimento direto no roteiro de Véspera. “Iniciei como consultora. Depois, passei a realmente trabalhar nas cenas, nas falas, nas ações.”

Nesse processo, a construção visual dos personagens é um dos aspectos que mais a fascina. “Na escrita, a beleza existe de um jeito íntimo, imaginado – tanto para o autor quanto para o leitor.

No cinema, tudo ganha materialidade concreta: a casa, o rosto, a roupa, a cidade.” Ela cita a escolha de Bruna Marquezine para viver a personagem Veneza como exemplo de como a linguagem visual acrescenta uma nova camada de interpretação sobre a obra. “Toda adaptação implica escolhas, cortes, novos olhares. A história deixa de ser sua e passa a ser de outros artistas”, pondera. Apesar da projeção crescente, Carla insiste que o centro de sua relação com a literatura continua sendo o instante da escrita, e não o sucesso editorial. “Busco aquele momento em que estou completamente entregue ao texto. Escrevendo algo que me provoca, me tira o sono, me envolve profundamente.”

Quem acompanha de perto essa tarefa quase obsessiva é o jornalista José Amaro, o Zinho, marido da escritora há 11 anos. Em casa, diz ele, a literatura costuma invadir a madrugada. “A Carla acorda muitas vezes no meio da noite para anotar uma frase, uma ideia, alguma imagem que apareceu. Acende a luz, pega o celular, escreve alguma coisa e volta a dormir. É de uma concentração impressionante”, conta.

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Zinho também integra o grupo restrito de leitores dos originais e acompanha de perto as conversas sobre personagens, cortes e rumos narrativos. Foi acompanhando esse processo desde Tudo é Rio que ele percebeu a dimensão da conexão criada entre Carla e os leitores. “Em clubes de leitura, presenciamos relatos emocionantes, pessoas falando de perdas, reconciliações, mudanças de vida. Em presídios, homens e mulheres comentavam como os livros mexiam com a maneira de enxergar a própria história.” Para ele, o aspecto mais impressionante da trajetória recente da escritora talvez seja justamente a permanência de uma certa simplicidade diante da projeção nacional. “O que mais admiro é que ela não mudou.”

Amiga de longa data, a psicóloga Vânia Moraes também acompanha a leitura dos livros no prelo. “Carla me procura muito para tensionar e confrontar as ideias. Ela me pede para identificar fragilidades do texto, rebater ou defender argumentos, testar os limites éticos e emocionais das personagens. Sua busca pela palavra mais adequada é incansável. Muitas vezes, muda expressões pequenas até encontrar exatamente o tom que procura”, relata.

 Para Vânia, parte da força literária está justamente na recusa em oferecer respostas definitivas. “Os livros deixam perguntas abertas, continuam reverberando depois do ponto-final”, observa. A psicóloga, porém, insiste que a compreensão da autora não se limita aos livros publicados. “Existe uma pessoa muito generosa antes da escritora. Muito curiosa com o outro, muito afetiva.”

“BUSCO AQUELE MOMENTO EM QUE ESTOU COMPLETAMENTE ENTREGUE AO TEXTO. ESCREVENDO ALGO QUE ME PROVOCA, ME TIRA O SONO”

A propósito, a dimensão dessa relação com os leitores ficou evidente durante a participação de Carla como patronesse do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, o Flipoços, cuja edição deste ano foi dedicada ao intimismo da literatura. Para Gisele Ferreira, curadora do evento, existe uma afinidade natural entre a obra da escritora e a atmosfera construída pelo festival. “Carla dialoga profundamente com essa ideia das palavras íntimas, das emoções humanas. Além disso, é muito delicada ao ocupar espaços e se relacionar com as pessoas”, observa. Em meio ao recorde de filas de autógrafos e lotação, a cena sintetizar a singularidade do fenômeno Carla Madeira: uma autora que transformou inquietações profundamente íntimas em experiência coletiva.

 

 

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