Comportamento

Ambiguidades

discordance 798855 1280

Image by John Hain from Pixabay

 

          Freud deu especial destaque aos impulsos destrutivos na economia psíquica. Amor e ódio inexoravelmente fazem parte integrante de nossa constituição mental. “Os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desapareceram em nenhum indivíduo”, afirmou ele em uma carta a Frederik van Eeden, completando que esses impulsos apenas aguardam a oportunidade certa para “exibir sua atividade”. Surgem até por coisas vãs: a música alta no vizinho, o motorista barbeiro, os fiéis de outras religiões, os torcedores de times rivais.

          Agressões, preconceitos, animosidades, antipatias, discórdias e uma extensa coorte de destemperos fazem parte da tessitura das relações humanas e do funcionamento social, contaminando até aquelas instituições que deveriam ser salvaguardas contra abusos e injustiças. A agressividade se faz presente também em domínios emocionais que nos parecem puros por definição, como a relação entre pais e filhos, a paixão dos enamorados, o exercício profissional, as crenças religiosas. Nossa vida afetiva é repleta de ambiguidades e exige uma luta constante para que possamos suplantar nossas tendências destrutivas. Hostilidades costumam fazer sua aparição quando menos se espera – no frio adeus do amante, na voz áspera que recrimina, na mão que agride, no olhar de censura, na fria indiferença que cega, no tiro de revólver que ceifa uma vida.

            A ordem social abriga preconceitos, discriminações e autoritarismos, frutos de impulsos agressivos que passam a integrar a racionalidade vigente. Quem já foi vítima da frieza e brutalidade institucionais sabe como é duro ser alvo da maldade instituída que flui na ação de tropas invasoras, nas operações policiais violentas, em prisões sem justa causa, em maus tratos e torturas, nas decisões burocráticas que desconhecem questões singulares. Nesses momentos o indivíduo é lançado em uma posição solitária de extrema fragilidade, subjugado e castigado pelas forças vigentes.

            A luta épica entre a Vida e a Morte é um combate permanente. Só com continuado empenho das forças construtivas será possível exorcizar as ameaças de destruição da humanidade, sempre à vista nas manchetes dos jornais. Elas são muito mais sérias do que gostaríamos de admitir.

 

Compartilhe