Queixas de desatenção e baixo rendimento não são suficientes para confirmar diagnóstico de transtornos como TDAH
Profissionais da saúde e da educação especializados no trato com crianças e adolescentes têm percebido um aumento do número de encaminhamentos por suspeita de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em seus consultórios. Reticentes quanto à existência de um hiper diagnóstico, justificam a curva ascendente a partir dos avanços no conheci mento científico sobre o tema. Também argumentam haver mais profissionais capacitados para atendimento e diagnóstico e a consequente ampliação do acesso para a população. A preocupação surge, segundo eles, quando há pressa em transformar comportamentos que fazem parte do desenvolvimento da infância em doença.
No Brasil, a prevalência do TDAH entre crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos é de 7,6%, de acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do TDAH do Ministério da Saúde, de julho de 2022. No mundo, este índice varia entre 3% e 8%. A psicóloga e psicopedagoga mediadora em funções executivas Bernadete Gomes atesta que, em sua prática clínica, alguns casos chegam motivados por queixas escolares de desatenção, inquietação ou baixo rendimento. “Estas queixas, por si só, não são suficientes para confirmar um diagnóstico”.

O neuropsicólogo especialista em terapia cognitivo-comportamental e reabilitação neuropsicológica Marcelo Moreira endossa ao argumentar que a infância é a época de desenvolvimento das habilidades cognitivas, das emoções, da atenção, de lidar com a frustração, de organização e de comporta mento. “Para o diagnóstico de TDAH, os sintomas precisam ser persistentes e aparecer em múltiplos contextos”.
Um critério fundamental é que os sintomas estejam presentes desde a infância, lembra Bernadete Gomes, com início antes dos 12 anos de idade. “Por isso, quando um adolescente de 14 ou 15 anos chega com uma queixa de desatenção que, segundo a família ou a es cola, surgiu apenas no 9º ano, é indispensável investigar de forma criteriosa se esses sinais existiam anteriormente ou se representam dificuldades recentes”, exemplifica.
A presença de pais ansiosos em busca de uma resposta à angústia de ver o filho com dificuldades de aprendizado é comum nos consultórios. “Enquadrar a criança em um CID acalma”, reflete Marcelo Moreira, ao admitir já ter enfrentado situações desafiadoras. “Acontece de exigirem o diagnóstico que viram na internet ou que a escola falou, com esperança de nomear uma situação para saber como lidar com ela”. A conduta, diz o neuropsicólogo, é não ceder à pressão.
É fato que a população brasileira está sujeita a um elevado grau de desinformação circulante nas redes sociais. A revista britânica Frontiers of Psychiatry publicou recentemente um estudo mostrando que 50% dos 100 posts no TikTok sobre TDAH mais acessados no país, com meio bilhão de visualizações, reportavam dados que nada tinham a ver com o transtorno.

Os riscos de diagnósticos apressados feitos pela internet e a falta de acompanhamento profissional para avaliação adequada são res saltados por um estudo da Faculdade de Medicina da UFMG. O levantamento demonstra que a triagem por questionários isolados gera uma taxa de “falsos positivos”. Quem explica é o professor adjunto do Departamento de Psiquiatria, Antônio Marcos Alvim Soares Júnior, integrante da pesquisa “Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na população de escolares de Belo Horizonte (MG): avaliação, diagnóstico e desenvolvimento de estratégias”.
O alvo do estudo foram os alunos do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas municipais e estaduais da capital. “O objetivo foi demonstrar como diferentes instrumentos de triagem e diferentes informantes, como pais versus professores, geram oscilações nas taxas de rastreio”, disse o psiquiatra. No inventário Child Behavior Che cklist (CBCL), preenchido pelos pais, e que avalia sintomas de TDAH e outros transtornos, a frequência de escolares que pontuaram na faixa clínica para TDAH ficou em 5,5%. No MTA-SNAP-IV, uma escala própria para TDAH e Transtorno de Oposição Desafiante (TOD), preenchido pelos professores, a prevalência ficou em 12%. Esta escala capta mais desatenção e hiperatividade, mas também inclui crianças com sintomas que decorrem de outros fatores, como ansiedade, estresse ambiental, dificuldades pedagógicas ou atrasos globais.
A terapeuta ocupacional Beatriz Couto For tuna, mestra em neurociências pela UFMG e especialista em transtornos do neurodesenvolvimento acredita que as escolas precisam reconhecer as demandas particulares dos estudantes para oferecer uma educação acessível e inclusiva, identificando barreiras e fazendo adaptações razoáveis. Segundo ela, é importante reconhecer quando uma dificuldade pode estar relacionada ao contexto escolar ou quando necessita de uma avaliação especializada.
Por outro lado, Beatriz Couto Fortuna diz ser necessário analisar as condições concre tas oferecidas aos estabelecimentos de ensino, muitos deles com turmas com até 40 estudantes, poucos profissionais de apoio especializados, estrutura insuficiente e oportunidades li mitadas de formação continuada. “Precisamos de políticas públicas capazes de transformar em prática os princípios da educação inclusiva e da Lei Brasileira de Inclusão”.

No Brasil, levantamentos indicam que a expansão do TDAH está fortemente vinculada ao contexto escolar, com crianças de 5 a 9 anos representando 49,32% dos atendimentos do Sistema Único de Saúde. O índice foi obtido por meio de análises epidemiológicas de dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA-SUS) compiladas entre 2023 e 2025. A concentração massiva nesta faixa etária evidencia a entrada na alfabetização e no Ensino Fundamental I como um grande catalisador de solicitações de avaliação psiquiátrica, analisa o professor adjunto do Departamento de Psiquiatria da UFMG, Antônio Marcos Alvim Soares Júnior.
Não significa que o transtorno “surja” ou esteja super diagnosticado nessa idade, mas sim que a exigência de atenção sustentada e de controle inibitório da sala de aula gera a queixa escolar, que move a busca por atendimento no SUS. A atenção sustentada e o controle inibi tório são habilidades neurológicas que amadurecem lentamente na infância. A criança que não consegue ficar quieta por longos períodos e focada na sala de aula é considera da indisciplinada ou incapaz de aprender. A escola transfere, assim, o problema pedagógico e social para o campo médico, gerando a “queixa escolar”. Pressionados por relatórios que sugerem transtornos, só que desta vez sem plano de saúde ou dinheiro para bancar uma avaliação neuropsicológica particular, os pais buscam no SUS o laudo para TDAH. A tendência é de tratar com medicação psicoestimulante do tipo metilfenidato (Ritalina), o que, muitas vezes, é uma inadequação do método de ensino.
Especialista em terapia cognitivo-comportamental e reabilitação neuropsicológica pelo Hospital Israelita Albert Einstein, Marcelo Moreira informa que dados históricos apontam aumento de 775% no consumo estimado do mesmo metilfenidato no Brasil entre 2003 e 2012, pulando de 94 quilos para 823 quilos, respectivamente. Já o comércio industrial brasileiro da substância saltou de 2,5 milhões para 4,5 milhões de unidades vendidas no comparativo entre os primeiros semestres de 2023 e 2024. Um crescimento perto de 80%, de acordo com a Anvisa.
Marcelo Moreira associa o crescimento do consumo do psicoestimulante ao excesso de diagnósticos. Pensando especificamente nas crianças, afirma ser muito mais fácil transferir para o comprimido a solução dos prejuízos de aprendizagem, do que melhorar a alimentação, o sono, o controle de impulsos e a permanência após uma avaliação geral. “Não sou contra a medicação. Ela é importante, mas tem uma população que não precisa. E o maior prejuízo é a medicação indiscriminada”.

O chefe do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da UFMG, Antônio Marcos Alvim Soares Júnior, acredita que, quando bem indicado, o uso a longo prazo de metilfenidato não aumenta o risco de desfechos adversos. “Pelo contrário, um estudo publicado em 2023 na The Lancet Psychiatry, uma das revistas científicas de maior prestígio, mostra que o tratamento adequado reduz o risco de abuso de substâncias, acidentes e encarceramento. É claro que esse achado não se aplica ao uso indevido, feito por conta própria”.
SERVIÇO
Clínica Espaço Presença – (31) 98637-8686
Marcelo Moreira Especialidades Médicas – (31) 98442-5531
