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O campo das artes conversa intimamente com a psicanálise, pois o que aciona o ato artístico nem a própria obra o revela.
O ato artístico seria um desvio de rota: aquilo que poderia se manifestar de forma impulsiva, até destrutiva, se congela na obra de arte transformando-se em algo sublime. Por isso, Freud criou o conceito de sublimação, tomando-o não apenas pela via do sublime, mas também pela perspectiva da física, que a define como uma mudança do estado da matéria em que uma substância passa diretamente de um estado a outro.
Se a cultura se detém na beleza das formas, a psicanálise não se interessa apenas pelo que tomou forma, mas pelo ponto de onde o ato artístico é acionado. Uma obra de arte, uma melodia ou uma poesia não são necessariamente representações intencionais; surgem como expressões de afetos inapreensíveis e inomináveis que escapam às formas discursivas.
QUANTA TRAGÉDIA PODERIA SER EVITADA SE OS IMPULSOS DESTRUTIVOS FOSSEM TRANSFORMADOS EM CRIAÇÃO ARTÍSTICA
Assim, a arte poderia operar como uma forma de salvação – se todos tivessem este dom. Quanta tragédia poderia ser evitada se os impulsos destrutivos fossem transformados em criação artística. Freud considerava tais produções das mesma ordem das formações do inconsciente, inscritas em objetos ou semblantes que mostram aquilo que, no humano, permanece em um reservatório pulsional, podendo tanto irromper no real quanto se sublimar na arte.
Há obras em que esse destino das pulsões se torna particularmente visível. Destaco a obra Guernica, de Pablo Picasso, que retrata o bombardeio durante a Guerra Civil Espanhola, e o painel Guerra e Paz, de Cândido Portinari, exposto, ironicamente, na sede da ONU, em Nova York.
